quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Editor Independente - Luís da Câmara Cascudo

Não discuto que o Livreiro-Editor é destinado a ganhar dinheiro. Deve ganhar dinheiro como se vendesse carne, peixe ou frutas. O essencial é que não distribua o produto avariado e meio podre. Poderá inundar o mercado de livros fáceis e bonitos por fora, mas inúteis e até dispensáveis. Cada ano podíamos fazer um exame de consciência para os nossos editores. Separar as edições que trazem dinheiro e as que, necessariamente, constituirão o auxílio do livreiro à cultura do país. Como a ninguém é dado o direito de monopolizar patriotismo, sabemos que o patriotismo de um editor é perder, isto é, deixar de ganhar, alguns contos de réis, oferecendo ao seu país dois ou três livros por ano pouco vendíveis e possivelmente encalhados nas prateleiras. Mas esses dois ou três livros são cheques que algum dia serão descontados. Seria curioso estabelecer a relação entre as toneladas de romances traduzidos ou copiados para o português, e os volumes de caráter científico oferecido ao público leitor. Como os editores têm os seus técnicos, os orientadores, as traduções dependem das simpatias individuais ou políticas desses órgãos. Tanto mais estridentemente “libertário” mais prisioneiro de sua casta, algemado ao seu grupo que o conduz para os horizontes imóveis da unilateralidade.
Quando um editor se filia a um “grupo” ou centraliza um “grupo” perde o direito a essa participação livre à cultura independente. Condiciona seu esforço dentro dos moldes afetuosos da preferência. Pode ser que a explicação seja coincidir a sua simpatia com a simpatia coletiva, isto é, do mercado comprador. O que se nota é a conquista do mercado para esses favoritos, a insistência do reclame, a obstinação na vulgarização quotidiana, o cuidado das capas bonitas, a rapidez das reedições mesmo quando a inicial não se esgotou. Tudo isso é banal e não pertence ao Brasil. Está no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, em Cabul, em Ragun e em Bangkok.
Um índice para a “utilidade editorial” é recordar os nomes revelados ou defendidos por ela. Um editor deve “satisfazer” ao gosto do público numa percentagem de 98%. E deixar dois por cento, para atender ao gosto de quem não é público nem pensa por números de maioria, nem obedece ao imperativo de ir-na-corrente nem passivamente repetir o gosto-porque-todos-gostam. Não é possível dar sempre chocolates ao bebê chorão e guloso...
Luís da Câmara Cascudo.
Diário de Natal - 1948

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A tela colorida

O que acontece quando olho aqui esta tela e tudo é uma escala cinza, pálida. E por que aquela outra tela que ele opera ali do lado se insurge coloridamente diante de meus olhos? Chega até a criar, assim a meu contra-gosto, um fantasma multicolor na íris e depois, quando tento jogar o olhar pelo vazio, pelos quatro vãos do prédio, só consigo arrastar uma vista manchada, demasiado manchada. Será que era assim que o rapaz do prédio em frente enxergava a vida: um ponto sem nexo. É, aquele rapaz... o jovem dentista que contou até três e desceu sete andares abaixo e que deixou como lembrança um barulho seco e estalado de ossos quebrados.

domingo, 11 de outubro de 2009

Poema de pausa

São quatro horas,
quatro dias
e quatro vezes
que me sento
para espantar
o devaneio
deste poema
e o cérebro,
essa metralhadora
contínua não rói
o osso por inteiro.

sábado, 10 de outubro de 2009

ROTEIRO DE POESIA 2000

Acaba de ser publicado pela editora Global mais um volume da coleção Roteiro da Poesia Brasileira. Os poetas apresentados neste número pertencem à geração 2000 e, portanto, trata-se de uma obra em aberto, visto que seus autores ainda estão com obras em progresso, com vozes ainda germinais, em estado larval. A seleção dos poemas coube ao também poeta, professor e crítico Marco Lucchesi.
O cardápio é geograficamente bem variado, abrange do norte ao sul e no quesito tempo cronológico, a seleção seccionou a fração de 2000 à 2006, então, daí denota-se a ausência de diversos jovens autores de vulto considerável que surgiram nos últimos anos e que certamente estariam inclusos em qualquer outra antologia. Entretanto, nesta antologia, o que a suporta é o aspecto do variável e do biodiverso, visto que lida com vozes que se apresentam como caixas de ressonância das diversas tendências, mídias e influências que coexistem na fauna do fazer poético.
Quatro poemas meus foram publicados na antologia. São poemas extraídos do livro Poemas Suíços. Mas além disso, o que mais me alegrou foi ver o material do grande poeta Leonardo Martinelli, meu amigo e camarada que partiu para outra. Fiquei feliz de ver que seus textos permanecem. Que tem lastro.
Para vocês, deixo um poema de Leonardo Martinelli que está no roteiro:
Às Armas
O tapa dói sem luva
na cara: a agulha hesita
-estala - do gatilho
a trava já dispara:
O poema (percurso
da bala) mira a mosca,
resvala - nem atina
honrar qualquer palavra.

domingo, 27 de setembro de 2009

Dia de Chuva

Chove. Chove muito na Carioca. O vento recorta a Senador Dantas e esfria as luzes verdes e amarelas da Petrobrás. Chove. Acendo um cigarro e na primeira tragada ele está molhado. Apalpo meu corpo, minhas costelas, o jeans colado de suor e chuva. Um rato se esgueira, luta contra correnteza que insiste em arrastá-lo para o fundo do bueiro. Chove mais. Chove muito. O rato não resiste, afunda junto aos restos de uma 13 de Maio castigada por guimbas e bugigangas e restos de papel de presente e toda sorte de material deixado para trás por camelôs desanimados. Um velho, aparentemente bêbado, se arrepende de tudo e joga o resto de guarda-chuva que ele ainda pensava ser capaz de protegê-lo das águas incessantes, das imperiosas golfadas de Deus. Ele se ajoelha diante de mim e de seus olhos cavos veio um pedido de ajuda, um pedido por uma mão, um empurrão para cima. Eu o levanto. Minimamente apurado, vai embora, caminhando tortuoso, apenas isso, vai embora. Chove cada vez mais. O centro se esvazia rapidamente e uma solidão de frio e reumatismo me assola, me imobiliza, me despreza. No meu ato divino de criação, o centro, agora, está submerso, é uma atlantes e esta chuva nada mais é que meu desespero de ser Deus, nada mais é que o meu estado de latência e de cansaço, nada mais é que o choro que deixo escorrer durante essa noite em que esmoreço sozinho a sua falta aqui ao lado.

sábado, 5 de setembro de 2009

do diário de notícias particulares

Faz tempos que não escrevo umas linhas para mim. Digo, aquela coisa da ourivesaria, de escrever umas linhas artísticas. Talvez porque falte inspiração. Talvez porque ainda me adapto ao novo trabalho e há um esforço mental extra. Talvez porque gosto de procrastinar. Não que eu não escreva. De fato, envio emails cotidianamente. Se antes passava horas em pé, locomovendo-me por entre as lombadas de livros para atender as demandas de clientes. Agora, posso as horas dedicando-me aos fornecedores e distribuidores de livros. Emails, muitos emails escrevo em uma jornada de laboro. Daí, também, se escoa minha atividade literária - na elaboração dos tais comunicados e contatos. Mas, verdade seja dita, também tenho lido pouco, logo (a coisa funciona assim... por simbiose e contaminação) escrevo pouco, mui pouco.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Lidice

Lidice renasce. A renascida.
De seus trezentos mortos,
de suas cinzas surge a Fênix.
Olhos angulosos.
Olhos Heil Hitler.
Olhos raios!

pois aqui sobreviemos
e vivemos para além
desta insujeita,
desvária e desvalida
arrogância de tentar
arrastar-nos para verdades
que não compreendemos.
Lidice, fênix e eu,
Flávio, forasteiro e insano,
descuidado e impreciso,
morto e renascido
a cada dia, a cada hora,
só por hoje, só por hoje.
Aquela cidade está por aqui
batendo um vaso sanguíneo
aquela cidade me faz
viver mais, acreditar mais.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

elementos

Terra é chão,
o chão de terra
é poeira, lama,
forjando rasteiro
desejo de ser.

Fogo e água,
no ar, na terra,
devaneando
insanos naufrágios
do crescer.

Terra e fogo
no ar, nos pulmões,
é grito afogado
labaredando
a areia de viver.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ouvindo Vozes - Edmar Oliveira

Trabalhei muitos anos na livraria da Travessa. Tempo maravilhoso. Finalmente, agora, estou no mercado editorial, na Vieira & Lent. Esta mudança ocorreu em um momento oportuno, decorrente de um amadurecimento. Cheguei aos 37 anos, muitos barcos já navegaram no meu rio. Já teve tempestade e bonança. Ir para lá foi uma escolha, um movimento para conhecer cada vez mais o meu objeto de trabalho, o livro, o papiro que ondula a superfície do rio movediço. E, ainda bem, já cheguei com muito trabalho. Temos quatro lançamentos no mês de agosto, mais dois agendados para setembro.

A Vieira & Lent tem um catálogo enxuto com o fino da bossa pinçado nas áreas afins da ciência, tais como: neurociência, darwinismo, astronomia; Coleções como a Ciência de Bolso com textos acessíveis para o leitor comum sobre diversos temas que vão desde a nanotecnologia ao porquê do sono na sala de aula. Além disso, livros infantis como a coleção do Neurônio Lembrador, de Roberto Lent, na qual as personagens dos 5 livrinhos da série são neurônios que habitam o cérebro do menino Ptix e reagem de maneira diferentes em cada acontecimento na vida do garoto. Com isso, as crianças aprendem como o cérebro funciona, como os neurônios funcionam e como isso influi na vida cotidiana.

Um dos lançamentos que estamos trabalhando é particularmente especial, o Ouvindo Vozes, de Edmar Oliveira. Inclusive, é o que motivou esse texto. Não parti direto ao assunto porque, afinal de contas, gosto de preâmbulos. O livro é uma viagem ao mundo manicomial, em especial ao Instituto Nise da Silveira. O autor, assim como este blogueiro aqui, também gosta um pouquinho dos tais preâmbulos. Para tanto, Refaz o percurso do tratamento manicomial no Rio de Janeiro para, por fim, relatar o processo de desativação das internações psiquiátricas no Nise (o antigo Pedro II no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro) e, conseqüentemente, a implementação dos projetos de moradia assistida aos pacientes e usuários do Nise.
Através de uma linguagem coloquial, pautada na ficcionalidade, tomamos contato com o universo real e irreal existente no cotidiano dos pacientes; visualisamos os processos burocráticos que por vezes atravancam a engrenagem rotineira de funcionamento de uma instituiçao hospitalar; percebemos os preconceitos enraizados em uma sociedade pouco preparada para lidar com a diversidade do pensar e do ouvir. Mergulhar na leitura de ouvindo vozes nos ajuda a compreender e a apreender um universo temido e socialmente ignorado, já que a primazia da exclusão social se faz presente, é uma realidade. Mas, indo além, a proposta do livro, se assim posso dizer, é apresentar ao público comum uma abordagem de tratamento viável de convívio, de interação e integração, melhor para o paciente psiquiátrico e mais saudável para a sociedade.

Ler o livro de Edmar é uma grande viagem e para tal viagem ser melhor e mais gostosa, a edição inclui as Anotações para um cemitério dos vivos, de Lima Barreto. Este texto são as anotações que ele produzia para seu próximo romance que não foi concretizado devido ao seu falecimento. Foram escritas durante sua estadia no Hospício nacional de alienados, na Urca.
Por fim, vale dizer que o livro vai ser lançado no próximo dia 19/08, na livraria da travessa de Ipanema.

sábado, 8 de agosto de 2009

Nascedouro

Nasce na chuva,
na curva, no esterno,
é um regato, uma fonte,
uma goteira que nasce
quando engasga,
cinge a glote e cerra os dentes
sem vida e sem beira
─ mesa de bilhar sem caçapa.

Nasce e finda visgo,
é um desvio que pegamos,
eu e você, sem vermos o fígado,
o rim, o pulmão, as cáries,
sem vermos nada,
cheiros ou sobremesas.

Mas assim nasce, e depois,
depois desanda e desanca
em outro lago que nasce,
nasce e empurra,
afunda e desembrulha
como um doce vômito
emergido de uma bolha
dupla de sentido
e de sentir para aquém
e para além do rio.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

os espelhos

p/ Flavia

Dois espelhos colados.
Frente e verso. Reversos.
no meio dos dois a cola,
a linha espremida
e sufocada. Ali, nós,
como lençol
grudento de suor,
somos pasta de vidro.

Ali no meio somos amor,
somos no nome
- a essência é o nome.

Se a cola é úmida ou seca,
Se o amor é na cama ou na louça,
somos o diário, o cotidiano
de dois espelhos que roçam,
gripam e espaldam
quando o sol desponta,
quando a rusga aponta.

Esse é o encontro
daquilo que nem
sabemos o quanto
e o como,
o quando e o que se é:
o nome, a força, a constância,
então refletimos, sim
refletimos, apenas isso,
refletimos cada um
seu modo de iluminar
o rosto do outro.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Blog de ouro


Ganhei esse simpático e mui honroso selo da blogueira Tatiana Carlotti. Valeu, muito legal mesmo. Então, a idéia é receber e passar adiante para mais cinco blogueiros. Esta semana está sendo bacana para mim, muito bacana mesmo, pois realizei uma mudança de vulto na minha vida. Além disso, recebi algumas homenagens do universo online: Moacy Cirne publicou um poema meu em seu balaio, Elaine Pauvolid, editora da revista eletrônica Aliás, publicou quatro poemas de minha lavra na edição deste mês, Adriano Nunes me dedicou um soneto maravilhoso e Jandira Rodrigues também escreveu um post-carta para mim. Bom né! São essas singelas relações que nos fazem seguir adiante e perceber o quanto é bom viver, viver com tranquilidade. Não se trata de ego e de vaidade. Trata sim, de reconhecimento, de valor, de amizade. Valeu mesmo.

Aí vão minhas indicações de Blogs de ouro, antes vale ressalvar que quando recebi a homenagem, pensei em repassar para mais de cinco pessoas, entre elas o Henrique Pimenta e o Moacy. Fui lá e percebi que eles já haviam ganho o selo simbólico de qualidade.

1 - Tremaliteratura (comecei a acompanhar este blog coletivo, o grupo escreve a bossa da crônica)

2 - O que faço com o que não faço (blog do Adriano Nunes, o autor publica ótimos sonetos).

3 - Diagnóstico desconhecido (blog do Solano, neste blog você lerá posts geralmente curtos, muito rico em alma).

4 - Para eu parar de me doer (blog de alto nível literário. Percebe-se o trabalho de linguagem, o burilamento. Roberta Mendes e Elis fazem do blog um sortimento de literatura, crítica de cinema e, repito, alto nível de escrita).

5 - Miscelâneas e tonterias da Jandira (o blog é meu porto seguro. Geralmente, agora menos, é a pessoa que lê meus textos antes de mim mesmo).

Bem aí estão minhas indicaçõe. Como disse, muitos outros blogueiros poderiam estar aí, fica para a próxima. Peço desculpas aos blogueiros (as) que, pelo instante não entraram na lista. Não fui eu que propus a regra, mas se tá aí vou seguir. É... Hoje estou assim. Vou seguindo... Sigo o cortejo e não pergunto pelo nome do defunto no caixão.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

LAMAÇAL

Lá no fundo do lamaçal,
na emergência das febres,
nas veias expostas, rompidas,
lá na boca do vulcão
ou do que se assemelha ao vulcão,
mas que também pode ser ânus ou furacão,
lá, a lira ventilou a luxúria e o álcool,
os sonhos canhotos, as frituras canhestras
e a fissura ungida por fina camada de vaselina.
Movimento retorcido, jogo de cimitarras,
brados e bólides assassinos,
fricção cáustica e chamuscada,
angústia nauseada,
meteoro e morteiro
e tudo que arremata e arreda,
e leva o pó ao fim,
ao ermo com garras e rezas.
A Terra é de lama e de pó
e a lira canta o chumbo
de crianças mortas.
O verso então redobrado
retorna à espinha e retoma
a forja da vida,
o sedimento do sangue.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

PAIXÃO E POEMA

O poeta apaixonado
dedica versos e livros
para mulheres que comovem
e movem na impossibilidade
da matéria e no reverso
do espelho o beijo
tem cores para cores
e superfícies para desníveis.
É um ser em profunda
profusão dos amores mortos
e não ama e incompreendido
confunde e co-funde
imagens e mistura a sintaxe
e vagueia na ortografia
e deixa espólio
fugaz e rápido
de poesia mal
capturada.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

as caixas

Me cansei de deitar em cima de caixas de livros. Isso sempre me deixa com uma dormência na espádula. Perdi alguns anos nessa coisa de deitar em caixas. Acho, na verdade, que perdi a noção de tempo. Se fazia sol ou não. Para mim é noite, sempre. A questão é que não sei o que fiz durante esses anos. Quero dizer, o que realmente fiz de produtivo. Andei aqui e acolá, trabalhando, fazendo meu sustento de morto-vivo. Nem sei quando o hábito começou, agora tanto faz, o que importa é que não me deito mais em cima de nenhuma caixa. Aliás, não me deito mais. Faz 72 duas horas que estou acordado, suando, sofrendo, com medo de adormecer. E se não durmo, consigo contar as horas e os dias, mas sei, vai chegar o momento de dormir. Tenho medo de sonhar e do que vou sonhar. Ilusões me apavoram.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Leo Marona - Pequenas biografias não-autorizadas



A poesia e os poetas sempre nos reservam grandes momentos. Desfrutar, apreciar e saber ler um poema assegura uma grande viagem para aqueles que participam deste universo. Não tenho dúvidas disso. Entendo que Leonardo Marona também compreende o que estou escrevendo. Não só ele, pois este ano tem sido promissor na poesia. Vi e li alguns poemas de autores que me fazem mergulhar no mesmo rio. Além de Marona, Gregório Duvivier e Diego Grando nos brindaram com excelentes livros de estréia. Livros cujos poemas possuem uma riqueza melódica e um trato mais intimista com a palavra e com a continuidade do verso. Livros que reatam a poesia com a espontaneidade ─ favor não confundir com ingenuidade ou versos de má qualidade ─ e com o toque íntimo: “o escrevo para você e contigo”.

Duas palavras escritas por Abujamra na orelha do livro Pequenas biografias não-autorizadas (7Letras, 2009), de Leo Marona, me chamaram a atenção: avalanche e fecundidade. Há outras que podem se conectar no mesmo campo semântico: confissão e jorro. E na poética do autor estas palavras adquirem valor de combustão, são pistões propulsores que ditam o andamento do livro. A divisão do sumário em duas partes elide a uma referência cronológica. Correspondem também a um tempo poético de descoberta de afetos e de gostos. Assim, as avalanches fecundam versos sobre o que o poeta sorve no seu cotidiano e que constituem suas biografias não autorizadas (Rilke, Cortázar, Antonioni, Descartes, entre outros...).

Na poesia de Marona o ritmo é emblema motriz, vitalidade. Sobrepõe paradoxalmente a escolha de uma estética morfossintática. A frase melódica implícita nos versos não se apresenta isolada, mas sim constituindo um Todo em cada poema, dividindo-se em núcleos distintos, em blocos de sentidos que complementam o valor de unidade dos poemas e por conseqüência da obra, como no poema Roçam-se os pés, no qual há um enlaçamento do ritmo do poema e a imagem de um cadenciamento dos pés através de rimas continuadas:


"acho que todo mundo / um pouco no fundo / sem saber como / quer o amor / como o fruto / de outro sigilo / secreto defunto / (...) agora é tarde e frio / os cílios se dobram / e existe um certo vazio / que só preenchemos / com calor hesitante / e os pés enlaçados / carregam o instante (...)"


De certo modo, a construção das imagens obedece a alguns critérios: o lirismo pessoalizado, reflexo do momento, é construído em uma sucessão rítmica de imagens. Se o ritmo dita a cadência fluídica, muitas vezes acelerada, o fluxo de imagens alardeia o caráter expansivo do autor, caráter voraz, juvenil, tentando ourivezar seus ímpetos, contidos pela inexorável ação do tempo, como no poema “ vinte e seis”, que debuta a segunda parte do livro:


“um dia, inevitavelmente, aconteceria. / o antigo poeta das linhas apócrifas/ sobre fantasmas internos e naufrágios / o infante terrível / o descabelado, / o vil / sem regras daria lugar ao homem grave, / à besta milenar – homem sem pernas, / meio doce meio amargo meio homem, / a boca sem fim inclinada para baixo, / as leituras eslavas, / a sutura do ódio / que prolifera para dentro em pústulas / e adquire a petulância de um mar parado.”


Poema rico em imagens e alusões. Há acima um rebuliço de nuances tanto de referências poéticas (Pessoa, Homero, Rimbaud), quanto de metáforas da rebeldia que se atenuam em morbidez romântica ( ... à besta milenar – homens sem pernas, / meio doce meio amargo meio homem, / a boca sempre inclinada para baixo, / as leituras eslavas, / a sutura do ódio...). E a idéia do mar regurgitando aceso e que por ordem do tempo (Um dia, inevitavelmente, aconteceria.) se condensa em algo flácido, sem músculos, um mar grave, parado. Ainda assim, há o desejo, a voragem de deglutir o Todo, mesmo consciencioso das etapas do processo do navegar pelos mares da poesia. Esta consciência é dolorida, é creditada aos embates entre o conter, o discernir e o expandir o verbo e o verso. No poema carta a um estudante de belas-artes, por exemplo, Marona realça o tom prosódico com descrições de recomendações poundianas:


"Ezra Pound dizia / nos seus ensaios sobre poesia / que a poesia era uma ciência / assim como química, medicina. / ele acreditava piamente / no ritmo absoluto / de cada ser humano. // nas formas sólidas e fluidas do poema / - como árvore ou água despejada - / concebia a poesia como arte exata / e cada homem como seu próprio poeta em si, / sem diferença entre amadores e profissionais (...)"


A dicção professoral acompanha o poema:


"dizia que não devíamos esperar demais / por ter nosso valor artístico reconhecido / antes de havermos descoberto algo novo. // dizia que devíamos ler os franceses, / sobretudo os gregos, / os florentinos, / que devíamos ler Confúcio inteiro, / Homero inteiro, as versões, / Ovídio e os poetas latinos “pessoais” / Catulo e Propércio. / ele veio do alto e nos disse, pousando: / não percam tempo com o que não presta, / vão direto ao talo do osso primordia!"


Súbito, depois de decantar o receituário, o poema caminha para o corte final: a supressão da direção professoral em prol de uma autonomia rebelde (quero que você, Pound, se foda. / Quero escrever tua poesia austera.), independente e um desejo autofágico de incorporar a poética poundiana em sua essência e não no seu modus operandi. Aí, de certo modo, o poema se apossa de sua liberdade total de criação. Me remeteu muito ao poema Estou com 25, de Gregory Corso, poeta beat, que escreveu os seguintes versos:


"Com o amor minha loucura por Shelley / Chatterton Rimbaud / e a tagalerice-carente dos primeiros anos / já fez correr de um ouvido a outro / EU DETESTO OS VELHOS POETAS ! / Especialmente os velhos poetas que recuam / que consultam outros poetas velhos / que falam de sua juventude em suspiros, / dizendo: ─ eu fiz estes naquela época / mas foi naquela época / foi naquela época ─ / Ah eu faria calar os homens velhos / diria a eles: sou amigo de vocês / o que vocês já foram um dia, através de mim / serão novamente ─ / E depois à noite na intimidade de suas casas / rasgaria suas línguas que só sabem se desculpar / roubando-lhes os poemas."


Esta semelhança de se apossar das outras vozes permeia quase todos as pequenas biografias não-autorizadas. Vemo-las em orangotangos ( herdeiros da poesia enlatada e da urina impura, / colheremos o excremento de mentes inseguras. ), em Whitman ( você tocou o primeiro clarinete de fogo. / deixe-nos sair do fogo, recuperar a casa. ), em Kerouac ( teu erro foi me fazer pular etapas / para chegar mais cedo à tua velhice ... ) Assim, a proposta poética advém da necessidade de reescrever cada influência, cada leitura pertinente, caracterizando-as tanto na sua origem ─ a forma e o conteúdo dos artistas biografados ─ quanto na fusão resultante do encontro entre as biografias e o autor, o Leo Marona.

Talvez o que sintetiza e o que “não” autoriza Marona a tematizar outros artistas seja justamente o seu momento poético de sorver o máximo possível do universo e apresentar-nos esta recolha de poemas. Talvez, seja do seu espírito jovem e índole ter uma voz tão plural, tão rica de nuances e, não se engane, claro leitor, como disse no início do texto, não há ingenuidade, pois os ajustes dos versos demonstram domínio de técnica, mas a que isso serve, se o que importa mesmo é o escrever consigo, para ti, para mim, para Antonioni, Chet Baker, Maiakovski, e tantos outros autorizados ou não.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O recital

O bacana de ler poesia em um recital é o olhar amiúde de alguma ouvinte. Ali, naquele olhar, o que se percebe é a sedução, apreensão de um sentimento que escorre como chocolate na garganta, pelas amídalas. Umas palavras, uns vôos que o dândi encosta na boca da musa. Alías, nosso poeta parece só vê-la na platéia, aliás, só vê os olhos dela, apesar da penumbra e das cinzas esfumadas que nebulam no recinto. A sala está cheia. O Uruguaio chacoalha um coquetel enquanto uma vela projeta um brilho amarelecido sob seus bigodes. Nosso poeta escala os tons, os semi-tons, os "ais" e casemira epopéias pessoais. Sobra no ar o veludo adocicado de perfumes sessentões e na sala, na ante-sala da noite, na hora do chá, o charme do pequeno apartamento da Vinícius de Moraes é o que existe para o nosso poeta e para aquela linha imaginária que o liga a sua musa. Ah! suspira o poeta no fim do recital. Após seu breve momento de flutuação, ele desce da pequena ribalda e acolhe os sorrisos do pequeno público. Como quem controla a ansiedade, deixa sua musa para o último sorriso e um café quem sabe... Mas o recital continua, tem de continuar, agora sobe no palco um escritor de vulto, de renome. E nosso poeta percebe o quanto há de buxixo e burburinho naquele pequeno apartamento, o quanto é difícil se locomover, o quanto a fumaça incomoda as suas narinas, o quanto ele já havia dito o que precisava e o quanto sua musa já era ex - musa de permanente mal feito e camisa espalhafatosa e que nem mais o olhava. E o insuportável era o fato de o uruguaio estar na porta, ali na cerca da saída pronto para recolher as comandas e o dinheiro daquele barzinho clandestino. Ao poeta restou apenas se sentar no canto, alargar o colarinho, desinflar o peito e contar os segundos no relógio.

sábado, 18 de julho de 2009

A hora de escrever

Já sei a hora de escrever. É agora, depois de falenciar o dia a ranhura das batatas da perna negaciam com as últimas forças. O vento deposto de sua brandura invade minhas narinas com voracidade aquilina. A mente pousa na janela o dia encerrado. É o descanso sob cotovelos e a pausa das horas de pensamentos bestas, de ilusões mundanas. Hora estorvada. De transbordo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Três poemas de Moacy Cirne



POEMA PARA
in cinema pax (1983)
tua boca, quente e aveludada,
acaricia o meu sexo
língua - prazer
língua paixão
língua-pasárgada
gesto que me doidice
enquanto, lusco e fusco,
navego em teus horizontes mais íntimos
para te lamber
todatodinha
até que sejamos
(sonhos e crepúsculos)
uma só pele
um só tato
um só gemido
na noite espanto de novembro
AUTOBIOGRAF
in docemente experimental (1988)
pedras e crepúsculos da minha infância
eis a oferenda seridolente
neste outubro lênin fuzil e amor
à espera da penúltima viagem
à espera do poema do sim e do chão a chão:
cabra da peste,
caatingueiro
caatingal,
eis-me
caicó sertão seridó
(faca e bala
bala e faca)
nascevivendo
de 40 e qualquer coisa:
a luz que me feria
não era luz
era a imagem de antônio silvino
nas beiradas do velho itans
a lua que me gemia
não era lua
era a imagem de dorothy lamour
nas telas do velho pax.
riovivente
de muitos
silêncios,
a meninice
cobria-me
de espantos,
filmes
e gibis.
UM OLHAR CANGAÇO
in qualquer tudo (1992)
um olhar cansaço
um lambelambe sem memória
um velho cinema pax
um cão sem plumas
um potengi ao crepusculecer
um maraca maracanã
um poema sem poesia
um xerenhenhenhé de mulher
um quase tudo nenhum
e
50
sonhos adormenguecidos
* Poemas extraídos do livro Continua na próxima, edições Leviatã, 1994.
Ps - Peço desculpas ao autor, mas não consegui reproduzir a disposição gráfica dos poemas. Tentei por duas vezes, entretanto o blogspot não me obedece os comandos...

domingo, 28 de junho de 2009

Alguns dilemas, dúvidas, proposições e uma confissão:

l
Rio 1/4/09.

Do meu caderno de anotações alguns dilemas, dúvidas, proposições e uma confissão: buscar uma escrita que resuma meus anseios. Que seja amalgama e síntese de minhas próprias concepções literárias. E que eu me desrespeite, me inconforme e desconfie do que escrevo. Ir no fundo das minhas confissões e depois retrabalhar tudo. Ourivezar com ternura, mas rígido. Sair do meu mundo de aparências. Sair daquilo que eu quero aparentar ser literariamente. Não ser beletrista. Combinar a prosódia com a riqueza de imagens, trabalhar os elementos imagéticos combinando-os com ação. Minha poesia tem verbo. Há quatro anos trabalho no Rio Movediço, em alguns poemas não lembro das células iniciais. Por outro lado, ainda visualizo os nichos em alguns outros poemas. Pensar o Todo do livro, o percurso do sumário, cada poema tem que ter um "link", uma corrente co-sanguínea. Não há como negar, o livro agora está carregado de Jorge de Lima, de Pessoa, precisa de um pouco de Pavese. Vem naturalmente. Flui naturalmente, mas também é firme como gelatina. É montanha russa. Corredeira. Procuro evitar a experiência concreta, embora tem um ou outro poema de Haroldo de Campos que gruda no meu cabelo como chiclete. Sofro, sofro esta loucura de pré-escrita, de ranhura, de estabelecimento de conceitos antes da escrita. É o atrito da caneta no papel antes do atrito do dedo no teclado. É o atrito e é para ser rasurado. Saber que este caderno é um apanhado disperso, caldeirão no qual deposito qualquer espécie de pensamento, de contas a pagar, de telefones, de tudo, bolas! É o processo contínuo de escrevinhar. Na verdade, este caderno vermelho é o meu compromisso de intensificar meu ato de escrita, de escrever mais, mais, mais. Encontrar um horário para escrever é meu dilema. Faz-se necessária a disciplina. Duas horas por dia de escrita. Estabelecer um prazo para o término do livro. Sim, é isso. Mas quando, quando implementar...?

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Frejat - Quem me olha só


A reprodução pode não ser das melhores, mas este vídeo marcou minha juventude. Era a época do Barão se separando. De certa forma, esta canção simboliza a vocação bluseira de Frejat. É ótima. A letra então, nem se fala


terça-feira, 23 de junho de 2009

Segredos

Guardo um segredo profundo
que de tão fundo se esvai
na saliva de um cachorro,
pela boca, e some num recanto
escondido, algum lugar meu
desconhecido. Mas sinto.
Sinto-o perene, mas firme,
chamuscando minhas mortes
e noites quando deito na cama
e o travesseiro aviva a insônia.
Guardo um segredo, um não!
dois: um é vazio, outro é buraco
no qual afundo, sem passos,
atávico, o passado obtuso
e obtlerado, aquele feito de neve
e gelo, pesado, muito pesado,
que cerziu o fantasma logo
abaixo do cimo do buraco,
um tampo de ilusões.

domingo, 21 de junho de 2009

Boris Vian na tradução de Ruy Proença



A LARD

Je n'ai jamais rencontré une femme
Qui m'ait fait regretter d'être un homme.
Je les prie de ne pas pendre ça pour un compliment.



COM BANHA

Nunca encontrei uma mulher
Que me fizesse arrepender-me de ser homem.
Peço a elas que não tomem por elogio.



A GRIFFES

Elle disait aux voyageurs
"Comment me trouvez-vous?"
Elle avait des grands yeaux très doux
Et l'air pélagiquement songeur.


Mais quand elle prenait ses gants
Pour vous entretenir
Il valeit mieux se souvenir
D'un rendez vous urgent.


Un (beau) jour, il vint un grand gars
Il s'appelait Edipe
Il s'appuyait sur son pen-bras
En tirant sur sa (court) pipe.


"Comment me trouvez-vous?" dit-elle
Il réfléchit, et puis il ralluma sa pipe qui partait
Mal et qui jutait, et lui dit: "Je vous trouve un os"
Le pire, c'est c'était vrai.



COM GARRAS


Ela dizia aos viajantes
"O que você acha de mim?"
Tinha olhos grandes muito excitantes
E um ar pelágico de querubim.


Mas quando sacava batom e pente
Para entreter o ouvinte
Melhor era o seguinte:
Lembrar de um comromisso urgente.


Um (belo) dia veio um tipo avantajado.
Chamava-se Édipo
Apoiava-se em seu cajado
Sorvendo seu (curto) cachimbo.


"O que você acha de mim?" disse ela
Ele pensou, reacendeu o cachimbo que falhava
E que babava, e lhe disse: "Eu te acho um osso."
O pior é que era verdade.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

AVELLANEDA

a Mario Benedetti

Ali está a porta que encerra,
decerto, vozes em suas nódoas
de madeira com a mesma feição
que a garganta resseca a poeira.
Adiante à porta imagina-se o choro
suado e salgado de alguém que diz:
Avellaneda e eu. E que bom seria
se você viesse mais uma vez.
Viesse a última, a única,
por Deus, viesse mais uma vez
riscar meu corpo com o batom
enquanto te beijo de carbono.
Se eu soubesse o que há por lá
por traz desse infinito platão
não seria então tão estático,
duvidoso, de versos sisudos.
Rasgaria sim, rasgaria
os lanhos de madeira com estrondo,
ávido de uns beijos matinais,
de um abraço de sua alma,
agora seca e muda.

sábado, 13 de junho de 2009

O Tempo

Dê um tempo. Dê
um tempo a si mesmo,
aquele da flor florir
da aranha tecer, dê.

Dê um tempo em si mesmo
não urge tomar cicuta todos os dias.
Apenas uma dose, o valete de paus,
ensimesmado, vem assassinar as luas.

Dê, por isso: um tempo
demasiado esticando as costas
desacabrunhando a voz
e desalitando o cansaço,
deixando no passado o asco,
o tempo do se...

Lá dentro mesmo do tempo
que você não deu.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

TRADUÇÕES DE JORGE WANDERLEY

No dia dos namorados, um presentaço do blogueiro para os amantes da literatura: alguns poemas de língua inglesa traduzidos por um dos maiores amantes da poesia, Jorge Wanderley.



Emily Dickinson

I died for beauty

I died for beauty but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.

He questioned softly why I failed?
“For beauty”, I replied.
“And I for truth, - the two are one;
We brethren are”, he said.

And so, as kinsmen met a night
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names.



Morri pela beleza

Morri pela beleza e mal chegara
A me ajustar ao meu túmulo
Quando alguém, que morreu pela verdade,
Foi estendido ao meu lado.

Suave perguntou porque eu morrera.
“Pela beleza”, eu lhe disse.
“E eu pela verdade – o que é o mesmo;
Somos irmãos”, respondeu.

E assim, como parentes reunidos,
Conversamos noite a dentro
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E recobriu nossos nomes.

Hilda Doolitle

Heat

O wind, rend open the heat.
cut apart the heat,
rend it to tatters.

Fruit cannot drop
through this thick are –
fruit cannot fall in to heat
that presses up and blunts
the point of pears
and rounds the grapes.

Cut the heat –
plough trough it,
turning it on either side
of your path.


Calor

Ó vento, rasga o calor,
secciona o calor,
rasga-o em farrapos.

Os frutos não podem cair
por este ar espesso...
não podem cair no calor
que se opõe e dá forma romba
às pontas das peras
e arredonda as uvas.

Corta o calor...
fende-o,
transforma-o nos dois lados
da tua estrada.


Patricia Hooper

Desert


Where there’s a river
that tastes of direction.

Where there’s on orchard,
that says survival.

Where there’s a desert,
that changes everything,

as if hadn’t wanted
to fill only her own need.

Deserto

Onde existe um rio,
aí se tem um sabor de direção.


Onde existe um pomar,
isto diz - sobrevida.

Onde existe um deserto,
isto muda tudo,

como se a terra não tivesse desejado
suprir apenas suas próprias carências.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Dossiê Ditadura: Mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964 - 1985


Acabei de receber um email de Marcelo Morel. Ele nos lembra que:
Acaba de ser publicada a edição AMPLIADA do “Dossiê Ditadura”. Esta edição, a segunda, ACRESCENTA NOVAS histórias de mortos e desaparecidos políticos no Brasil e tem prefácio de Paulo Evaristo Cardeal Arns – Arcebispo Metropolitano de São Paulo e Fabio Konder Comparato.

Como o acesso aos arquivos oficiais ainda é dificultado, “Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)” conta com informações coletadas por meio de pesquisas, conversas e troca de correspondência com parentes, amigos e ex-presos políticos. O lançamento é da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e IEVE (Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado).

Dados de catalogação:
Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)
2ª Edição revista, ampliada e atualizada
Org. Criméia de Almeida, Janaina de Almeida Teles, Suzana K. Lisboa e Maria Amélia Teles
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo / Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos / IEVE - Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado
772 páginas R$ 60,00

***
Na década de 1970, as famílias de mortos e desaparecidos durante o regime militar iniciaram a busca, difícil e dolorosa, de informações sobre as circunstâncias dos crimes. A missão era não somente esclarecer os acontecimentos, localizar restos mortais e identificar os responsáveis, mas principalmente preservar a memória do que ocorreu e, assim, contribuir para a difusão de uma cultura de defesa dos direitos humanos.

“Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)” é resultado desse trabalho incansável e sofrido, empreendido por uma comissão de familiares, muitos deles também vítimas da violência. Trata-se de um levantamento exaustivo e abrangente, cuja segunda edição, com incontáveis acréscimos, foi feita pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e IEVE (Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado).

A primeira edição, após quase duas décadas de buscas por informação e algumas versões preliminares, foi publicada em 1995. A luta por esclarecimentos, porém, nunca cessou. Esta nova edição, revista e ampliada, reúne histórias ilustradas de 436 mortos e desaparecidos durante o regime militar. No Brasil, são 396, sendo 237 mortos e 159 desaparecidos políticos --desde a última edição, novas investigações acrescentaram as histórias de 69 pessoas, além de terem ajudado a corrigir várias das versões anteriores.

No exterior, há 30 casos, incluindo mortos em decorrência de seqüelas de tortura ou de acidente no exílio. Há, ainda, 10 pessoas que morreram antes do golpe.

“Algumas pessoas que pensávamos terem sido mortas na rua em tiroteios foram na verdade presas, torturadas e executadas. Lembro que foram 132 casos em que provamos serem mentirosas as versões da ditadura de suicídios, atropelamentos e tiroteios”, afirma uma das quatro responsáveis pela redação final do livro, Suzana Lisboa, ex-guerrilheira cujo marido foi a primeira vítima a ser reconhecida oficialmente, em 1979.

Este número de vítimas ainda não é definitivo. Não foram esgotadas as possibilidades de pesquisa e investigação, como as realizadas nos arquivos do antigo SNI, por exemplo. Nem foi possível, também, o acesso aos arquivos militares. É o que diz Criméia de Almeida, outra das responsáveis pela redação final do livro. Sobrevivente da guerrilha do Araguaia, ela perdeu o marido e o sogro: “Os arquivos nos são sistematicamente negados sob a alegação de que não existem, até mesmo quando ganhamos na justiça esse direito como é o caso do Araguaia, em outubro de 2003. Até hoje a sentença não foi executada”.

Grande parte das informações, segundo ela, foi obtida, direta ou indiretamente, com ajuda dos familiares. “Nossa meta futura é fazer com que os arquivos sejam realmente abertos e o país tenha uma Comissão de Verdade e Justiça que esclareça as circunstâncias em que se deram as mortes e desaparecimentos e puna os responsáveis por tais crimes”.

Ao comparar os dois momentos, o da primeira edição do “Dossiê Ditadura” e o atual, Criméia de Almeida diz que houve avanço, mas “num ritmo muito aquém do que seria necessário ou desejável numa democracia”. Para Suzana Lisboa, o Brasil está muito atrás dos países da América Latina. Desde a última edição, as denúncias aumentaram, vale destacar, porque outros países têm pedido a prisão de agentes do estado brasileiro.

No livro, organizado cronologicamente, cada vítima tem sua história de vida e luta contada. Estão lá membros de partidos, militantes de grupos de esquerda e de movimentos sociais, além de outros que, sem qualquer atividade política, foram mortos “por acaso”, por terem sido confundidos. Existem casos famosos, como o do Capitão Lamarca e Iara Iavelberg, mortos na Bahia no começo dos anos 70, os dos participantes da guerrilha do Araguaia, que resistiram até 1974, e o do jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975. O livro inclui também boxes temáticos que ajudam a contextualizar os crimes e a luta dos familiares, tais como aqueles que tratam do AI-5, do Congresso da UNE em Ibiúna, da Campanha pela Anistia, da Crise dos Desaparecidos de 1975 e das tentativas de criar a CPI da Tortura.

No prefácio à nova edição, o jurista Fábio Konder Comparato lembra que, ao ler qualquer das páginas, é praticamente impossível evitar as lágrimas. Porém, acrescenta ele, a consciência ética deve nos levar além de reações emocionais. Afinal, há várias perguntas que permanecem: “Por que razão tudo isso aconteceu entre nós durante anos, sob o olhar indiferente da maioria esmagadora da população? É decente virar as costas para essa fase ignominiosa da história brasileira, sem se importar com a identificação e a punição dos mandantes, financiadores e executantes de todos os crimes aqui descritos?”, diz.

Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo --e, assim como Konder Comparato, uma das vozes mais ativas na luta pelos direitos humanos--, ressaltava já no prefácio à primeira edição que este livro, “de dor e melancolias”, surgia para “fazer pensar e fazer mudar o que deve ser mudado em favor da vida e da verdade”.

Por meio do site http://www.desaparecidospoliticos.org.br/, mantido pelos familiares, tem sido possível receber informações. Se a redação final contou com quatro pessoas, o levantamento teve –e continua a ter -- a contribuição de incontáveis participantes.


***

Lançamento do livro no Rio de Janeiro:
Livraria da Puc- Gávea. 12/6 Sexta-feira: 17:30h




sexta-feira, 5 de junho de 2009

LUZES ACESAS

Amanhece na casa
e sobram luzes acesas.
São várias. Pálidas.
Pouso o corpo
em uma fístula
matutina de sol.
Sacode a mente, aninha
a ambrosina que serelepe
me aquece de um frio
quase invernal.
Mas o tempo,
o tempo presente
nestes poemas
não são luminosos,
tão pouco contém
espuma e sangue,
são tempos de espera,
de espera.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os Bagateleiros da bagatelas

Parece que estes dias tá pintando uma nostalgia forte e coletiva. Parte da antiga turma está se comentando, se revisitando na rede e relembrando alguns dos momentos vividos em 2005 e 2006, quando fizemos a aglutinação/movimento Bagatelas. Márcio Calixto postou um texto no seu Pictorescos sobre a escrita dos atalhos de Tatiana Carlotti. E realmente, a moça "filha de fila de ônibus e cartão de ponto" está se superando, atalhos urbanos é um blog de primeira qualidade, repleto de crônicas que me fazem respirar sampa pelos poros. Sem perder tempo, a caríssima blogueira aproveitou para levantar a bola, empurrar a lebre e retornar a gentileza: Não só agradeceu a lembrança sempre minuciosa e crítica de Calixto, como alinhavou o rumo de alguns outros bagateleiros. Valeu garota!

Não vou delongar este diálogo dos dois. Basta visitá-los.

Fazer a Bagatelas foi por demais para a minha pessoa. E depois de quase três anos, quem sabe dá para fazer uma síntese sobre o que foi a Bagatelas! (claro que é minha ótica, outros participantes dessa história também possuem seus prismas de visão).

Para mim, a Bagatelas foi um projeto com dois objetivos bem aglutinados: estimular a leitura e divulgar os parceiros que participavam do projeto. Para isso, atuamos em três frentes específicas:
1) A internet:
Nela, cada participante tinha o "compromisso" de postar semanalmente um texto. A internet era a ferramenta de aglutinação dos escritores. A construímos de modo geográfico, inclusive, já que os participantes estavam espalhados pelo Brasil, Portugal e Guiné-Bissau. Este princípio geográfico, facilitado pela rede, nos possibilitou trabalhar o conceito de aproximação do universo lusófono. Em sua maioria, os escritores da bagatelas produziam para seus respectivos blogs, o que aumentou a divulgação do núcleo bagateleiro.
Através do nosso sítio, realizamos 2 concursos de contos via rede. Aqui no Rio, recebíamos os contos e os analisávamos isentamente sem conhecer o autor, a única exigência aos particpantes era o uso de pseudônimo e as custas do envio do material. A premiação era a publicação na revista Bagatelas. Na net publicamos duas entrevistas. Uma com o escritor Ondjak e outra com Godofredo de Oliveira Neto.
2) A revista:
Na revista publicávamos os contos inéditos dos participantes e convidados. A estrutura editorial da revista era: 1 entrevista com um escritor já reconhecidamente presente no mercado literário + contos dos participantes + 1 ensaio crítico + 1 pequeno texto de um escritor já reconhecidamente presente no mercado literário + 1 conto de autor premiado em nossos concursos.
Além dos bagateleiros, participaram das revistas através de entrevistas ou enviando contos, os seguintes autores: Marçal Aquino, Márcia Denser, Marcelino Freire, Pedro Juan Gutierrez, Antônio Torres e Luis Ruffato e Sérgio Sant'anna.
A revista era vendida por 3,00. Fizemos 3 números.
3) Encontros Bagatelas:
Encontros que realizamos na livraria Imperial, no Rio de Janeiro. Convidávamos algum autor(a) para nos falar de seu processo de criação e de sua obra. Era um bate-papo informal, pois a idéia nunca foi de fazer um mega evento. A idéia era a intimidade. Participaram dos eventos os seguintes convidados: Alberto Mussa, Heloísa Seixas e Ruy Castro, Antônio Torres, Sérgio Sant'anna, Flávio Moreira da Costa, Zetho Cunha Gonçalves, Dodô Azevedo e Mauro Ventura.
Partiparam em algum momento da bagatelas os seguintes escritores:
Rio de Janeiro:
Raphael Vidal, Luciano Silva, Márcio Calixto, Miguel do Rosário, Camilla Lopes, Nilovsky, Eloise Porto, Antônio Mas, Ernesto Aguiar, Jorge Souva, Douglas Evangelista, Júlio César Corrêa e eu.
São Paulo:
Tatiana Carlotti, Rogério Augusto e Bianca Rosalem.
Rio Grande do Sul
Emerson Wiskow.
Paraíba:
Amanda K.
Bahia:
Rodrigo Melo.
Portugal:
Luis Felipe Cristovão e Jorge Flores.
Guiné-Bissau:
Waldir Araujo.
Acho que é isso. Em suma, rolou muitas coisas no inside da Bagatelas, mas isso é outra história.

A ÁRVORE

Ponto final. Desci:
Em frente uma árvore me olhou,
robusta e desgrenhada
sua sombra me envolveu
como o útero de minha mãe sorrindo
e disse: esta rua é minha,
aqui tem grito e desatino,
reza e menino órfão,
nao tem manga nem pitanga,
tem flores na esquina,
gato pardo e restaurante chinês.
Nesta rua do alto vejo tudo
e sem estricnina ou outra ina
beijo tua mulher na varanda.
Naquele instante embasbaquei
e a abracei com o mundo
de meus braços.

terça-feira, 2 de junho de 2009

AMIGO NOTURNO

No ventríloquo esquerdo, bem abaixo
tem uma vozinha que arfa, esparsa e arfa.
Ela mistura-se ao princípio do sono, fio
engasgado que ilumina as ruas de Orfeu.
Assustado, desabo na cantilena da vozinha
e me vejo inquirido e culpado, desastrado.
Em horas, a vozinha nutre um corpóreo
malsão feito de carapinha e dentes cariados
e soçobram ao lado da cama os restos de cinzas,
flores e dissabores de um dia já apagado
e mal-vinda a noite que amanhece
é ali que ela me esclarece as pálpebras
e os segundos que passo vendo
escuro diante dos meus pesadelos.

domingo, 31 de maio de 2009

PEIXE DE AQUÁRIO

Vi um peixe silencioso e mínimo,
paciente, escondido num pequeno
coreto de corais. Vi, só eu o vi.
Só eu vi suas bolhas
sonoras atraindo outros peixes
menores. Solitários.

Veio um que só eu vi. Atraído
pelas bolhas veio
escorregando as escamas,
deslizando por entre crustáceos.

Os olhos opacos dos dois peixes
se destacaram quando
se encontraram.Um aflito e esquivo.
O outro seco e esquizo, esguio.

Era meio-dia, quando meu amigo
olhava o mundo pela janela e gritou:
Mundo louco esse! Olha lá!
Um pivete acabou de esbofetear um camarada.
Deixa pra lá, eu disse, enquanto
assistia, no meu aquário de relaxamento,
meu serial killer predileto.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Fernando Pessoa - Que espécie de Homem sou...



Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou.
Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) — por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror da e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.
O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção — enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.
Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

segunda-feira, 25 de maio de 2009

EXERCÍCIO POÉTICO

No quarto sentado
no colo do meu corpo
me desafio conhecer
estas paredes que me narram
no centro das vigas e no visgo
do concreto sem poros.
Por ora assisto o desfolhar
dos cupins expondo o estertor
do mofo e do aniquilamento
no armário e nos lençóis,
enquanto na janela do quarto
um black-out estendido
derrete as cinzas de sol
e esconde para além
o além dos meus pensamentos.

sábado, 23 de maio de 2009

MONTEZ MAGNO

EPILEPOESIA



No álamo, no páramo
e nas proximidades do terceiro ventríloco
e do sulco que os separa,
acham-se importantes núcleos do sistema.
Aí se encontram
os centros térmicos do sonho.
Ao lado deles, os centros voluntários,
cuja artificial mecânica
provoca atividades em várias regiões,
surgindo assim as descargas elétricas
e as visões oníricas, poéticas.









CINCO MOMENTOS DE UM PÁSSARO NOTURNO
a San Juan de la Cruz



Cinco momentos cobrem sua exatidão:
primeiro há de vir sereno na passagem,
pois o que é brusco perde a espontaneidade;
em seguida se instala intacto e atento,
os olhos repetindo sinais de sua presença;
logo abarca o mundo mas não anuncia;
só então se lança em vôo que subverte
as dimensões do dia, recolhe a aparência
Por fim alterna a sombra em luz, mas não revela
que o pouso foi completo. Incólume, se retira


Poemas extraídos do livro Narkosis, 2º edição ampliada, Olinda - 1981

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Chuva Fina



Gláucia Chris está na garagem do domingão do Fausto!


Veja o vídeo por lá:
Cai chuva do céu Cinzento
[Fernando Pessoa]

Cai chuva do céu cinzento
Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.





Dia Chuvoso
[Edson Peka]



A chuva fina polvilhando a Terra
Como cortina úmida de seda,
Atrás de si o sol radiante encerra;
Pinta de cinza o mundo em sua queda;

Confina a vida aos casacões de lã;
E nos convida à improdutividade:
Quem sabe os planos deixar pra amanhã?
Pro outro ano? Ou pra eternidade?

O tempo passa enquanto a chuva cai,
E a Terra abraça a água, e se embriaga,
E balbucia um poema de amor;
E a chuva embebe (enquanto o tempo vai)
Quem não percebe qual torrente o traga:
Se a chuva fria ou sua própria dor...















quarta-feira, 20 de maio de 2009

INDECISOS - GUSTAVO DO CARMO




Caros leitores,
apresento a vocês o prefácio que escrevi sobre o livro Indecisos, de Gustavo do Carmo.
INDECISOS.

Estes Indecisos, de Gustavo do Carmo, se inserem no híbrido que existe entre a crônica e o conto. São doze histórias que transitam na urbanidade e no âmbito familiar, através de personagens e enredos variados, cujos enlaces e desenlaces se desenvolvem harmoniosamente por cada página do livro. O tema central, como próprio título sugere, é a indecisão, a encruzilhada, o momento em que o fio de lã puxa pelas duas pontas. Embora a temática reflita um processo natural do humano: a dúvida e o medo do acerto, as opções narrativas encadeadas pelo autor apontam para a simplicidade tanto na abertura quanto no fechamento dos textos, aliás, estes nos trazem surpresas agradáveis.

Em Indecisos, conta de abertura, a indecisão é nomeada claramente na escolha do nome do filho de um determinado casal. Os pais não conseguem se decidir sobre qual nome. O fato é anunciado ao leitor logo no primeiro parágrafo do conto: “(...) A terceira foi escolher o nome da criança. Durante a gravidez, pensou em vários nomes masculinos e femininos; Rafael, Marcos, Ricardo, Roberto, Reynaldo, Ronaldo, Flavia, Luciana, Marcela, Daniela... Como nasceu um menino, Arnaldo Augusto optou, pelo menos, em começar o nome com a letra R.” A pendenga da escolha do nome da criança desdobra-se na história para a confusão da troca de nomes da esposa de Arnaldo Augusto e de sua antiga namorada. A assim por diante, durante toda a história surgem dúvidas nos pensamentos do protagonista.

Uma das marcas impressas nos contos é a ironia. Gustavo a trabalha bem. Sabe empregá-la de modo sutil, sem exageros. É através dela que ele dita o ritmo das histórias. A percebemos quando a dúvida original da primeira história se mantém e se perpetua, levando o protagonista a não resolve-la, complicando ainda mais a história. Mas o que podemos esperar de um personagem que se chama Arnaldo Augusto, senão um complexo de duplicidades, enganos, dúvidas. Até nisto o autor se propõe montar o conjunto de sua literatura de modo completo.

O mosaico literário de Indecisos é direto. Neste ponto, caro leitor, você não terá muitas delongas e/ou digressões. A narrativa de Gustavo é concentrada, é cinematográfica. O autor não inventa, atém-se a história, pois é esta sua ocupação e o faz. Este precioso detalhe traz leveza aos contos. Assim, podemos ir de uma história a outra sem perdermos o sentido maior da obra, a indecisão.

Tanto o tempo quanto o cenário são duas ferramentas bem administradas. No caso do tempo chega a ser instigante como o autor o utiliza. Constantemente abrindo perspectivas novas (o tempo é um dos responsáveis pelos efeitos suspensivos que temos ao ler cada texto). Em diversos contos do livro, os narradores e os personagens refazem suas vidas, buscando nas reminiscências as saídas para seus conflitos. Sim, é recurso clássico, mas bem feito. No conto Com muito orgulho! O tempo é tão presente que se transmuta nas duas equipes de futebol: o time presente e o time futuro. Há o jogo. Há o tempo: 46 minutos da segunda etapa. Há o árbitro, o nosso protagonista que refaz em segundos o percurso de sua vida: “Lembrou dentro de uma cestinha de vime, na porta de ferro vazada, protegida por um vitral azul de um casarão. Ele, bebê, protegido por uma manta de lã branca. Não havia um único bilhete. Nem uma única mamadeira. O recém-nascido chorava de fome.”

Por último vale ressalvar que Gustavo tem pleno domínio de sua técnica de criação. Este seu segundo livro nos faz ansiar pelo próximo e desejar novos vôos, novas investidas na literatura. No mais, caro leitor, o que vale mesmo é passar decididamente este página e iniciar a leitura dos contos.

Boa leitura!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Nas margens do rio

O tempo é nublado e mormaço. Tem alguns zumbidos de mosquitos estalando próximo ao pescoço. O barulho do rio movendo-se. Sentado na margem do rio, entre o capinzal que esconde insetos e anfíbios escorregadios, ele observa o marolar. A roupa está esfarrapada. A camiseta regata: amarela. A calça de tons marrons tem mais do que a cor somente, tem também uma pasta viscosa colada ao tecido. Não há cheiros. Uns peixes nadam nas bordas do rio. Peixes escuros e velozes, passeiam num ir e vir constante, movimento migratório. São muitos e aproximam-se dele, olham-no certeiros, e depois partem em direção ao desconhecido, seguindo o fluxo das águas, esgueirando-se entre as rochas e as algas, nadando nas corredeiras.
Do outro lado existem árvores com jeito de esquecidas, suas folhas caídas emolduram o tronco. Em algumas, as folhas descem da copa como uma massa amarronzada ou areia movediça, acúmulo de húmus, de vermes, de minhocas, de vida, mas não uma vida sólida, embora consistente, apesar de líqüida também, uma vida espessa que se expande pelas árvores e se mistura ao solo. Vida esquiva e escorregadia.
Há na largura de uma margem até a outra uma medida que não se escandeia por ninguém, só por aqueles olhos, únicos olhos presentes no ato e no dia desconhecido. Olhos cheio de artérias saltando por fora das pupilas. No meio, pulsando velozmente, passa o rio que ele não sabe onde nasce, nem onde finda. Mas do lado em que ele se posta de cócoras num movimento encarquilhado cheio de curvaturas, ele tenta auscultar com a vista a longa passagem que se delineia de um ponto que vai giratoriamente o circulando, colocando-o no centro de tempo sem sol. Ele não visualiza o que está se descortinando por detrás da margem do rio movediço porque não está consciente, porque neste momento ele é ausência, vácuo e ponto suspenso. É sono. E balança na cama de um lado para o outro lentamente, como se estivesse em um barco deslizando pelo rio, sendo ninado. Sonhando.

sábado, 16 de maio de 2009

Rio de mim

Um rio flui dentro do meu corpo.
Chora, ri e se alegra.
Não sei onde nasce.

No coração que bombeia sangue
ele também está
no fígado, no pâncreas...
Está em todos os lugares
cheio de peixinhos.
Misturam-se o sangue e os peixinhos
formando um oceano de emoções
que desenha letras, palavras,
orações e poemas.
O rio é um poema agradecido
saindo como gotas salivares
explodindo por minha boca a fora,

regando plantas e flores.

Antônio Máximo & Baudelaire - pequenos poemas em prosa


O poeta e professor Antônio Máximo Ferraz estará dialogando com Baudelaire no Centro Cultural da Justiça Federal. Serão três encontros como o objetivo de ver como Baudelaire resgata a poeticidade do cotidiano, do trivial, do insólito, do maligno - em suma: de tudo aquilo que está à margem do sistema funcional que caracteriza a Modernidade.


para maiores informações, contate: maximoferraz@gmail.com ou o site do próprio CCJF




quarta-feira, 13 de maio de 2009

O lixo dos extremos.

Tenho pensado nos lixos extremos, nas vontades extremadas e naqueles estranhos que perderam os combates, as pequenas guerras diárias e que afinal, sucumbiram diante da vida, mesmo quando uma réstia de sangue corria em suas veias. Porque a vida é um fio tênue, uma luta de equilíbrio entre a insanidade e a boa vontade.

Olho em volta e em qualquer lugar dessa cidade sinto cheiro de refugo. Dejetos humanos andrajam e sobrevivem. Olhar para eles não me incomoda, não os sinto como lixo, não os temo, pelo contrário, muitas vezes me irmano na sensação de ser esquivo, tangente. Aliás, me pergunto: não seria um deles? Não estaria também na camada do refugo, do lixo, do descarte? E No final das contas, não seria o lixo o que realmente permanece?

Veja o carro zero quilometros passando na esquina e o último modelo da roupa bem cortada segundo os preceitos da última moda comentada pelo jornalista na televisão; os livros novíssimos que são publicados, nos ensinando um jeito de suportar viver... o que esses objetos se tornarão? lixo, apenas isso... que somam-se ao lixo anterior, um após outro, formando a montanha de objetos inúteis, de bactérias, de vermes, de gás metano, porque também há vida na sobrevida. Palestinos são o lixo dos israelenses e o Iraque é o lixo do petróleo. E de repente precisamos nos proteger das crianças que atiram em alguma escola estadunidense. Algum refugo que saiu do trilho. Precisamos nos proteger, precisamos... Será que realmente é disso que precisamos, proteção ou refreiar o desejo consumista?

Mas, de fato, o que permanece e aumenta é o lixo, o refugo, a sobra. E é ela que vai corroendo, atemorizando e fedendo. Durante anos o lixo e o degredo estanciavam no limítrofe da cidade. Agora, sentimos o cheiro na Linha Vermelha, vemos o urubu descansando na varanda de um apartamento de São Conrado e ouvimos algum lunático sugerindo tacar fogo nas favelas... Ainda assim vamos ao extremo e repetimos: Rio de Janeiro?! Rio de Janeiro é lindo... É show... Qual mesmo? Este que repetimos ou o que cresce diante de nós, o Rio lixo.