domingo, 31 de maio de 2009

PEIXE DE AQUÁRIO

Vi um peixe silencioso e mínimo,
paciente, escondido num pequeno
coreto de corais. Vi, só eu o vi.
Só eu vi suas bolhas
sonoras atraindo outros peixes
menores. Solitários.

Veio um que só eu vi. Atraído
pelas bolhas veio
escorregando as escamas,
deslizando por entre crustáceos.

Os olhos opacos dos dois peixes
se destacaram quando
se encontraram.Um aflito e esquivo.
O outro seco e esquizo, esguio.

Era meio-dia, quando meu amigo
olhava o mundo pela janela e gritou:
Mundo louco esse! Olha lá!
Um pivete acabou de esbofetear um camarada.
Deixa pra lá, eu disse, enquanto
assistia, no meu aquário de relaxamento,
meu serial killer predileto.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Fernando Pessoa - Que espécie de Homem sou...



Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou.
Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) — por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror da e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.
O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção — enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.
Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

segunda-feira, 25 de maio de 2009

EXERCÍCIO POÉTICO

No quarto sentado
no colo do meu corpo
me desafio conhecer
estas paredes que me narram
no centro das vigas e no visgo
do concreto sem poros.
Por ora assisto o desfolhar
dos cupins expondo o estertor
do mofo e do aniquilamento
no armário e nos lençóis,
enquanto na janela do quarto
um black-out estendido
derrete as cinzas de sol
e esconde para além
o além dos meus pensamentos.

sábado, 23 de maio de 2009

MONTEZ MAGNO

EPILEPOESIA



No álamo, no páramo
e nas proximidades do terceiro ventríloco
e do sulco que os separa,
acham-se importantes núcleos do sistema.
Aí se encontram
os centros térmicos do sonho.
Ao lado deles, os centros voluntários,
cuja artificial mecânica
provoca atividades em várias regiões,
surgindo assim as descargas elétricas
e as visões oníricas, poéticas.









CINCO MOMENTOS DE UM PÁSSARO NOTURNO
a San Juan de la Cruz



Cinco momentos cobrem sua exatidão:
primeiro há de vir sereno na passagem,
pois o que é brusco perde a espontaneidade;
em seguida se instala intacto e atento,
os olhos repetindo sinais de sua presença;
logo abarca o mundo mas não anuncia;
só então se lança em vôo que subverte
as dimensões do dia, recolhe a aparência
Por fim alterna a sombra em luz, mas não revela
que o pouso foi completo. Incólume, se retira


Poemas extraídos do livro Narkosis, 2º edição ampliada, Olinda - 1981

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Chuva Fina



Gláucia Chris está na garagem do domingão do Fausto!


Veja o vídeo por lá:
Cai chuva do céu Cinzento
[Fernando Pessoa]

Cai chuva do céu cinzento
Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.





Dia Chuvoso
[Edson Peka]



A chuva fina polvilhando a Terra
Como cortina úmida de seda,
Atrás de si o sol radiante encerra;
Pinta de cinza o mundo em sua queda;

Confina a vida aos casacões de lã;
E nos convida à improdutividade:
Quem sabe os planos deixar pra amanhã?
Pro outro ano? Ou pra eternidade?

O tempo passa enquanto a chuva cai,
E a Terra abraça a água, e se embriaga,
E balbucia um poema de amor;
E a chuva embebe (enquanto o tempo vai)
Quem não percebe qual torrente o traga:
Se a chuva fria ou sua própria dor...















quarta-feira, 20 de maio de 2009

INDECISOS - GUSTAVO DO CARMO




Caros leitores,
apresento a vocês o prefácio que escrevi sobre o livro Indecisos, de Gustavo do Carmo.
INDECISOS.

Estes Indecisos, de Gustavo do Carmo, se inserem no híbrido que existe entre a crônica e o conto. São doze histórias que transitam na urbanidade e no âmbito familiar, através de personagens e enredos variados, cujos enlaces e desenlaces se desenvolvem harmoniosamente por cada página do livro. O tema central, como próprio título sugere, é a indecisão, a encruzilhada, o momento em que o fio de lã puxa pelas duas pontas. Embora a temática reflita um processo natural do humano: a dúvida e o medo do acerto, as opções narrativas encadeadas pelo autor apontam para a simplicidade tanto na abertura quanto no fechamento dos textos, aliás, estes nos trazem surpresas agradáveis.

Em Indecisos, conta de abertura, a indecisão é nomeada claramente na escolha do nome do filho de um determinado casal. Os pais não conseguem se decidir sobre qual nome. O fato é anunciado ao leitor logo no primeiro parágrafo do conto: “(...) A terceira foi escolher o nome da criança. Durante a gravidez, pensou em vários nomes masculinos e femininos; Rafael, Marcos, Ricardo, Roberto, Reynaldo, Ronaldo, Flavia, Luciana, Marcela, Daniela... Como nasceu um menino, Arnaldo Augusto optou, pelo menos, em começar o nome com a letra R.” A pendenga da escolha do nome da criança desdobra-se na história para a confusão da troca de nomes da esposa de Arnaldo Augusto e de sua antiga namorada. A assim por diante, durante toda a história surgem dúvidas nos pensamentos do protagonista.

Uma das marcas impressas nos contos é a ironia. Gustavo a trabalha bem. Sabe empregá-la de modo sutil, sem exageros. É através dela que ele dita o ritmo das histórias. A percebemos quando a dúvida original da primeira história se mantém e se perpetua, levando o protagonista a não resolve-la, complicando ainda mais a história. Mas o que podemos esperar de um personagem que se chama Arnaldo Augusto, senão um complexo de duplicidades, enganos, dúvidas. Até nisto o autor se propõe montar o conjunto de sua literatura de modo completo.

O mosaico literário de Indecisos é direto. Neste ponto, caro leitor, você não terá muitas delongas e/ou digressões. A narrativa de Gustavo é concentrada, é cinematográfica. O autor não inventa, atém-se a história, pois é esta sua ocupação e o faz. Este precioso detalhe traz leveza aos contos. Assim, podemos ir de uma história a outra sem perdermos o sentido maior da obra, a indecisão.

Tanto o tempo quanto o cenário são duas ferramentas bem administradas. No caso do tempo chega a ser instigante como o autor o utiliza. Constantemente abrindo perspectivas novas (o tempo é um dos responsáveis pelos efeitos suspensivos que temos ao ler cada texto). Em diversos contos do livro, os narradores e os personagens refazem suas vidas, buscando nas reminiscências as saídas para seus conflitos. Sim, é recurso clássico, mas bem feito. No conto Com muito orgulho! O tempo é tão presente que se transmuta nas duas equipes de futebol: o time presente e o time futuro. Há o jogo. Há o tempo: 46 minutos da segunda etapa. Há o árbitro, o nosso protagonista que refaz em segundos o percurso de sua vida: “Lembrou dentro de uma cestinha de vime, na porta de ferro vazada, protegida por um vitral azul de um casarão. Ele, bebê, protegido por uma manta de lã branca. Não havia um único bilhete. Nem uma única mamadeira. O recém-nascido chorava de fome.”

Por último vale ressalvar que Gustavo tem pleno domínio de sua técnica de criação. Este seu segundo livro nos faz ansiar pelo próximo e desejar novos vôos, novas investidas na literatura. No mais, caro leitor, o que vale mesmo é passar decididamente este página e iniciar a leitura dos contos.

Boa leitura!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Nas margens do rio

O tempo é nublado e mormaço. Tem alguns zumbidos de mosquitos estalando próximo ao pescoço. O barulho do rio movendo-se. Sentado na margem do rio, entre o capinzal que esconde insetos e anfíbios escorregadios, ele observa o marolar. A roupa está esfarrapada. A camiseta regata: amarela. A calça de tons marrons tem mais do que a cor somente, tem também uma pasta viscosa colada ao tecido. Não há cheiros. Uns peixes nadam nas bordas do rio. Peixes escuros e velozes, passeiam num ir e vir constante, movimento migratório. São muitos e aproximam-se dele, olham-no certeiros, e depois partem em direção ao desconhecido, seguindo o fluxo das águas, esgueirando-se entre as rochas e as algas, nadando nas corredeiras.
Do outro lado existem árvores com jeito de esquecidas, suas folhas caídas emolduram o tronco. Em algumas, as folhas descem da copa como uma massa amarronzada ou areia movediça, acúmulo de húmus, de vermes, de minhocas, de vida, mas não uma vida sólida, embora consistente, apesar de líqüida também, uma vida espessa que se expande pelas árvores e se mistura ao solo. Vida esquiva e escorregadia.
Há na largura de uma margem até a outra uma medida que não se escandeia por ninguém, só por aqueles olhos, únicos olhos presentes no ato e no dia desconhecido. Olhos cheio de artérias saltando por fora das pupilas. No meio, pulsando velozmente, passa o rio que ele não sabe onde nasce, nem onde finda. Mas do lado em que ele se posta de cócoras num movimento encarquilhado cheio de curvaturas, ele tenta auscultar com a vista a longa passagem que se delineia de um ponto que vai giratoriamente o circulando, colocando-o no centro de tempo sem sol. Ele não visualiza o que está se descortinando por detrás da margem do rio movediço porque não está consciente, porque neste momento ele é ausência, vácuo e ponto suspenso. É sono. E balança na cama de um lado para o outro lentamente, como se estivesse em um barco deslizando pelo rio, sendo ninado. Sonhando.

sábado, 16 de maio de 2009

Rio de mim

Um rio flui dentro do meu corpo.
Chora, ri e se alegra.
Não sei onde nasce.

No coração que bombeia sangue
ele também está
no fígado, no pâncreas...
Está em todos os lugares
cheio de peixinhos.
Misturam-se o sangue e os peixinhos
formando um oceano de emoções
que desenha letras, palavras,
orações e poemas.
O rio é um poema agradecido
saindo como gotas salivares
explodindo por minha boca a fora,

regando plantas e flores.

Antônio Máximo & Baudelaire - pequenos poemas em prosa


O poeta e professor Antônio Máximo Ferraz estará dialogando com Baudelaire no Centro Cultural da Justiça Federal. Serão três encontros como o objetivo de ver como Baudelaire resgata a poeticidade do cotidiano, do trivial, do insólito, do maligno - em suma: de tudo aquilo que está à margem do sistema funcional que caracteriza a Modernidade.


para maiores informações, contate: maximoferraz@gmail.com ou o site do próprio CCJF




quarta-feira, 13 de maio de 2009

O lixo dos extremos.

Tenho pensado nos lixos extremos, nas vontades extremadas e naqueles estranhos que perderam os combates, as pequenas guerras diárias e que afinal, sucumbiram diante da vida, mesmo quando uma réstia de sangue corria em suas veias. Porque a vida é um fio tênue, uma luta de equilíbrio entre a insanidade e a boa vontade.

Olho em volta e em qualquer lugar dessa cidade sinto cheiro de refugo. Dejetos humanos andrajam e sobrevivem. Olhar para eles não me incomoda, não os sinto como lixo, não os temo, pelo contrário, muitas vezes me irmano na sensação de ser esquivo, tangente. Aliás, me pergunto: não seria um deles? Não estaria também na camada do refugo, do lixo, do descarte? E No final das contas, não seria o lixo o que realmente permanece?

Veja o carro zero quilometros passando na esquina e o último modelo da roupa bem cortada segundo os preceitos da última moda comentada pelo jornalista na televisão; os livros novíssimos que são publicados, nos ensinando um jeito de suportar viver... o que esses objetos se tornarão? lixo, apenas isso... que somam-se ao lixo anterior, um após outro, formando a montanha de objetos inúteis, de bactérias, de vermes, de gás metano, porque também há vida na sobrevida. Palestinos são o lixo dos israelenses e o Iraque é o lixo do petróleo. E de repente precisamos nos proteger das crianças que atiram em alguma escola estadunidense. Algum refugo que saiu do trilho. Precisamos nos proteger, precisamos... Será que realmente é disso que precisamos, proteção ou refreiar o desejo consumista?

Mas, de fato, o que permanece e aumenta é o lixo, o refugo, a sobra. E é ela que vai corroendo, atemorizando e fedendo. Durante anos o lixo e o degredo estanciavam no limítrofe da cidade. Agora, sentimos o cheiro na Linha Vermelha, vemos o urubu descansando na varanda de um apartamento de São Conrado e ouvimos algum lunático sugerindo tacar fogo nas favelas... Ainda assim vamos ao extremo e repetimos: Rio de Janeiro?! Rio de Janeiro é lindo... É show... Qual mesmo? Este que repetimos ou o que cresce diante de nós, o Rio lixo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O barro criativo de Brasil Barreto



Conheci Brasil Barreto no início dos anos 90. Na época, eu estava fissurado nos círculos de recitação do Rio. Do castelinho à Febarj, passando pelo Museu da República, assistia as performances dos poetas popularmente chamados de marginais. Para mim, eles eram os resquícios das gerações de 70, os que popularizaram os panfletos literários, as cópias mimeografadas. Lá, naqueles palcos improvisados, se apresentavam poetas da estirpe de Flávio Nascimento, Zeca Magalhães, Lúcia Nobre, Samaral (editor da revista Urbana), Brasil e outros.


Eles integravam um corpus de ativismo cultural maior ainda. Quase todos já eram quarentões e já tinham, como o próprio Brasil define, passado das nomenclaturas de Poetas do Mimeógrafo para Poetas Marginais e ultimamente recebiam a alcunha de Independentes - talvez por razão de o grupo acima citado não ter sido assimilado pela academia nem pelos corpos editoriais.


Desde meados dos anos 70 muitos desses poetas faziam um trabalho extremamente artesanal. Eles produziam com esmero suas publicações e as faziam circular nas ruas. Vendiam-as nos bares "in" da juventude, nas praias, nos cinemas, tal como fazem os poetas que estão na porta do CCBB. Brasil foi além, ele se especializou na produção de livros artesanais, seus livros sempre primam em cada tiragem por inovações no design estético e econômico. Já faz algum tempo que não nos cruzamos na cena carioca, justamente porque me afastei do circuito, parti para outras paragens. Ainda me lembro do Brasil em 2005, quando tomamos uma cervejinha no Lins Vasconcelos. Acho que ele deu uma acalmada no esporte boêmio, se ele não deu, não passa de tagalerice de minha parte, já que eu dei a parada, o stop.


Os poemas de Brasil remontam o ideário romântico com assertivas reflexivas existênciais. Pode-se combinar o Bandeira ao Varela num de seus campos de influência. Diferente de muitos poetas de sua geração, que ventilavam o lastro da oralidade como matriz criadora dos poemas, Brasil força uma viagem interior na qual o "onde" que o seu "eu" pode chegar não está muito longe do ponto de partida, visto que está tonto de poesia, embriagado de orgias e carrega muitas dores do mundo. Ainda assim o poeta não despreza a melodia, a linha ritmica do poema. Quando há quebras, elas são sutis, sob medida.


Um dos poemas que mais me encantam de Brasil é Poças d'água. Nele há uma condensação do sentido. O elemento água está presente desde o início até fim.


Poças d´água


Pasmo nessa tarde de um sábado invernal

sob uma chuva, molhando o chão de pura

nostalgia, sigo em frente nessa trilha

salto poças d'águas, numa sequência

mágica do jogo de amarelinhas, num

pérpétuo céu e inferno, droga de azar.


Meus rompantes febris se alternam com o frio

trago comigo uma pessoa frienta e incandescida,

insistente na difícil arte de enganar destinos.


Sigo avante, mapeando novas rotas estrelares.

Retorno para casa, após passar pelos imbecis,

que buscam sentidos em minhas aliterações...

Lembro a imagem de suas máscaras cínicas.


Peço aos céus, uma manhã, vestido de sol

dando conta de todas as minhas cismas vis e vãs

só para ver a vida fluir nos saltos de uma rã.



A percepção andarilha do Brasil o sitia no Rio. No Rio o que ele vê é modernismo, é o açoite de quem precisa embriagar-se, como no poema veloz-cidade:


Veloz-cidade


Quem sabe existe

um poema parodiando

o nosso cotidiano.

A cidade apressada

entardece as horas,

logo a boca da noite

a engolirá em velozes

amargos goles...

Sabemos dos perigos

que nela rondam,

a leptospirose

tem seu lugar comum.

O amor é vendido

a cada esquina,

fragmentos esquecidos.

Aos meus olhos cenas sutis

a vida nua e crua,

anseia no meio da praça

de mãos dadas com suas gurias

ofertando sexos mirins,

a vida é essa camarada

que passa nua nos becos

dos seus santos dias.


No poema anônimo, publicado originalmente na revista Urbana 15, o poeta continua suas aventuras pelas ruas do Rio. A temática é similar ao exposto acima. A cidade envolta pelo olhar flaneur do poeta é dolorosa. Também há no fim do poema a mesma reflexão que finaliza a outra obra, a religiosidade que habita a cidade e que coexiste penosamente no poema.


Anônimo


Dorme esquecida a cidade

um sono cinzento,

de domingo chuvoso.

Como anônimo, círculo

procurando o cintilar do verso.


O medo me acena

a cada esquina;

contorno a vida:


-Via estúpida -


Plugada na marginal

do meu pobre peito,

onde se aninha uma dor

que ora ainda desconheço.


Doce é o amor que se basta,

fruto que devoro estremecido,

persiguindo pegadas

num labirinto de véus.

Então direi: duro é o chão

sem a leveza dos céus.


Estes são alguns dos vários poema de Brasil. Sua obra é extensa, porém difícil de encontrar. Ele não anda muito na rede, salvo aqui e acolá. Sinto saudades do camarada!


A foto que ilustra o post foi gentilmente copiada do blog ser poeta ao nada, do Edu Planches.


domingo, 10 de maio de 2009

ROSANA QUEIROZ - NO VALE DO EXÍLIO DE SOMBRAS

Há alguns anos, mas especificamente em 1995, adquiri em um sebo o livro No vale do exílio de sombras, de Rosana Queiroz. Sempre vou e volto relendo os poemas da autora. Fiz uma pesquisa na internet e apesar de encontrar alguns links que direcionam na área de literatura para o nome Rosana Queiroz, não identifiquei nenhuma referência de estilo e estética que condiz com o traço poético da autora do livro que possuo.

São interessantes esses livros que nos deparam em estantes de sebos. Autores de apenas um único título. Quantos escritores bons, como que não registram suas obras em livros?

No entanto, o mercado continua nos injetando muitas porcarias...
Mas deixo aqui dois poemas de Rosana para apreciação.


Chuvarada

A voracidade do verão sobre a laje
é zinir renitente de um bicho cascudo
ou piada de filhote de galinha, inexoravelmente só.
Meu pai xinga trovões que não entendo
(tem uma orquestra debaixo da garganta):
como pode existir alguém tão vesicular
amiudando a vida.
No porto a atracação do navio
é como parto com dor, alexandrino.
O cheiro do mar oleoso só quando vai chover
é que passeia na vila.
Sobre minha cabeça esta dúvida: resistirão os tetos,
a lona está bem jungida sobre os livros?

Depois, o cheiro pacífico do musgo vivo, hostial.


Visagem

Existe uma hora
das mais medianas do dia
que sugere um lago à beira de uma estrada de atalho
onde o cascalho
do poema repousa no fundo, inabalado, enjoado

lá onde algas respiram/repousam límpidas, amorosas criaturas

em que as coisas parecem sóis presos em luz de frialdades
vacilam entre tudo e nada
sob a luz nostálgica de um útero

que nos abrigue do caos
uma hora em que o futuro se projeta
de uma memória ebúlica.

sábado, 9 de maio de 2009

contato

Para mim parece que o ano acabou de começar. Explico: só agora estou devidamente conectado à internet. De novembro a maio sem conexão. Aproveitei para por a escrita manuscrita devidamente em dia. Eu fiz um diário, li bastante, explorei meus poemas inacabados do Rio Movediço.

É estranho ficar sem visitar os blogs favoritos, ficar adormecido das leituras diárias. Neste intervalo percebi uma queda vertiginosa de visitas. Se o blog andava com bom índice no fim do ano passado, agora vou ter que cativar novamente o pessoal. Mas isso não me preocupa muito não. Aos poucos vou retomando o ritmo, desenferrujando a mão. A idéia continua a mesma: fazer do Rio Movediço um espaço dinâmico e crítico. Discutir literatura, política e futebol, artes plásticas. Fazer entrevistas, resenhas, publicar outros autores e expor minhas opiniões.

Bom mesmo foi ver que a rapaziada continua com o faro fino. Meus ex-colegas de bagatelas, Tatiana Carlotti e Miguel do Rosário estão mandando bala nos respectivos blogs.
***
A Flip já está com data marcada para começar mais uma edição. O homenageado do ano é o nosso peneumotorax Bandeira, o Manuelzinho. É sem dúvidas, a festa literária de maior repercussão no Brasil, embora receba diversas críticas, entre elas, cita-se a relação ao capital investido e retorno social que a festa proporciona, mesmo com toda a cobertura midiática que ela obtém durante sua execução, pondendo inclusive, compará-la ao Carnaval, ou a uma final de campeonato no Maracanã. Na mídia, a Flip suplantou a histórica Bienal e tornou-se o momento do livro no Brasil, a Meca.

Há dois anos o escritor paulista Marcelo Mirisola publicou um texto sentando o pau no evento. Diga-se que o artigo foi escrito originalmente para o Zero Hora. O jornal, sem muitas delongas, o ceifou de seu papel, censurando-o. O inquieto escritor, não satisfeito o publicou na rede e no livro de sua autoria “o proibidão” que reúne, além deste texto, outros de semelhantes ímpetos. De fato, algumas de suas críticas foram extremamente contundentes, basta você, caro leitor, dar um pequena procurada pela internet que certamente encontrará a reprodução na íntegra do dito cujo.

No ano passado foi a vez da Carta Capital publicar um artigo expondo as mazelas da Flip. Vamos ver, neste ano, quem atirará a primeira pedra.