terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ENTREVISTA - FRANCISCO PEREIRA

Caros leitores, o mês de Dezembro foi de grandes mudanças para mim. E por conta disso tive de me ausentar das postagens mais cotidianas. Ainda assim procuro me antenar para o que está acontecendo no universo literário. Este postagem é para inaugurar bem o ano, trata-se de uma entrevista com Francisco Pereira, da Editora Reflexiva.

Em outubro do ano passado ocorreu mais uma vez a tradicional feira de livros da cidade alemã de Frankfurt. Nela, em uma bela jogada de marketing e planejamento, o editor Francisco Pereira lançou a Editora Reflexiva. Francisco mora em Vitória e mesmo fora do eixo editorial Rio-São Paulo, aposta em idéias inovadoras para entrar no mercado. Com aplicabilidade e conceitos empreendedores, Francisco prova que poesia também se vende. Em Frankfurt, ele lançou Escrevo, o primeiro título de sua editora. Talvez só a idéia de lançar uma editora brasileira lá fora, fato por si só inédito, já alavancasse a circulação de escrevo, mas indo mais além, a Reflexiva foi uma das sensações da feira.

Escrevo é peculiar. Trata-se de um livro de um único poema escrito apenas com dezesseis palavras que se alternam durante as páginas, criando assim, inúmeras frases poéticas que propõem as seguintes reflexões: O que me leva A escrever / A que me leva O escrever. A partir desse binômio a estrutura poética se divide numa perspectiva infinita com diversas respostas para as duas proposições, sempre com as dezesseis palavras.

O livro é de Gonçalves de Lima, poeta natural de Crato no Ceará. Assim está no fim do livro. Mas na verdade o autor do livro é o próprio editor, fato revelado após a entrevista que fizemos por email. Não mexi nem modifiquei a entrevista a partir do fato novo. Pois, isso, no meu modo de ver é assunto para uma nova entrevista.




1 - Francisco, como e quando a idéia da editora Reflexiva foi amadurecendo?

A idéia da editora surgiu quase ao mesmo tempo da idéia de ir a Frankfurt. A participação na Feira de Frankfurt, com a conseqüente venda dos direitos do livro, iria viabilizar a editora (que nasceu depois do livro). Ainda que não fossem vendidos muitos exemplares no Brasil, acreditei que daria pra vender (pelo menos) “um pouco” em vários países e línguas diferentes. Afinal o trabalho é original e fácil de traduzir.



2 - E quais são as perspectivas (linhas editoriais) que a editora pretende trabalhar?

Por algum tempo, seremos uma editora de um único livro. Quero ver até onde esse livrinho pode ir. Não quero falar ainda sobre os meus planos. Ia parecer louco e/ou pretensioso. O mesmo que alguns pensaram antes da minha ida a Frankfurt, mas não os critico por isso. Quem acreditaria numa editora iniciante em Frankfurt, com um único livro, e que ainda nem foi publicado?

3 - O primeiro livro da Editora, o Escrevo, de Gonçalves de Lima, foi lançado com muito sucesso na feira de livros de Frankfurt, uma das mais importantes do mercado literário. O que te levou a lançar o livro lá fora, por que não aqui?

O estigma de que autor brasileiro não vende lá fora, principalmente se for estreante e desconhecido, era um desafio e tanto. Eu apostei na universalidade da obra. Queria testar a reação de leitores de diferentes culturas diante de um livro inédito. Cada visitante do estande se sentia o primeiro leitor. “Unbelievable!”. Talvez tenha sido essa a expressão que mais ouvi durante a Feira. Mesmo sabendo que o livro ainda não havia sido publicado no Brasil, alguns publishers estrangeiros queriam fechar o contrato imediatamente.


4 - Escrevo é um livro de poemas e que trata do ato de escrever, o que te leva a apostar na poesia, já que há uma aura no mercado livreiro que afirma que poesia não vende?

Vender “o que não vende” torna o desafio mais interessante. Mas não é só poesia que não vende. A maioria dos livros publicados também não vende muito. Pouquíssimos livros de poesia alcançaram grandes tiragens e eu enxergava a possibilidade de ser mais um a superar essa barreira. Na verdade eu não apostei na poesia. Apostei neste livro, que pode ser considerado um único poema.

5 - Como os originais de Escrevo chegaram em suas mãos?

A história do livro e da editora é cheia de acasos e mistérios. Vai render... um livro.
Alguns amigos do autor (nenhum deles do meio editorial) tiveram acesso aos originais. A maioria não deu importância. Eu achei interessante, mas imaginei que alguém já tivesse escrito algo parecido. Fiz uma pesquisa inicial na internet sobre “poesias permutatórias” e, pra minha surpresa, não consegui encontrar algum texto longo usando tão poucas palavras.
Drummond, por exemplo, usou vinte palavras no célebre poema (de dez versos) “No meio do caminho”. Continuei a pesquisa em livrarias e bibliotecas e vi que se tratava de um trabalho original. A dúvida era: será que vende?

5 comentários:

Moacy Cirne disse...

Sem dúvida, uma proposta editorial bastante interessante. Tomara que se viabilize. Como também interessantíssimo é o poema/livro em pauta, ainda mais com a questão da autoria sendo colocada nos termos expostos por você. Vamos esperar pelo desdobramento da iniciativa. Um abraço.

Tati disse...

Senti falta. beijo!

Márcio Calixto disse...

instigante, mandou muito bem, meu querido, muito mesmo. Saudade de nossas bebedeiras, de todas elas. Um beijo pra ti.

Anderson Fonseca disse...

Excelente entrevista Flávio, que trabalho ineressante, torço pra que tal proposta vingue em nosso país, um abraço amigo!

Fayna disse...

Adorei a entrevista!!! E acredito que nosso País precise realmente de mais iniciativas como essa.Beijo