quarta-feira, 16 de julho de 2008

LIVRARIA



Naquele tempo, dormia com faca debaixo do travesseiro. Temia que alguém viesse roubar-lhe os sonhos. Assim que o dia amadurecia, atravessado por pássaros pretos em viagem, levantava da cama. Um colchão gasto. Levantava e reparava na camada de poeira, grossa, cheia de tufos de cabelos, teias de aranhas e pernas de baratas mortas ou centopéias ou algo assim tão nojento quanto um banheiro de botequim sem água há dias. Ia até o encontro da camada de poeira e a cheirava. E a cheirava. E a cheirava ainda mais. Depois variava, falava alto, emitia grunhidos, gemia desespero. Surto. Delírio. Uma camada de poeira. Mundo nublado. E se transformava em outro mundo. Variava. Logo após, retomava o sono e o sonho.
Livraria. Lá. Brilho. Incandescente. Recontava livros, avaliava estoques, pensava em pedidos, atendia clientes, fugia de outros, separava encomendas, cadastrava, andava de um ponto ao outro, suava, contabilizava lucros de livros em litros de café. Algo de autômato, baboso. Lobotomia. Numa outra manhã, num outro dia, num outro sonho, lá estava ele, novamente, na livraria, tracejando, esquadrinhando passo a passo cada verbete e nome. Mesmo mortiça, sua retina registrava capas, fotogramas, intervalos, flashs de palavras, sílabas, letras, volumes e mesas adiposas de livros. Tateava nódoas de madeira e, como uma foice, seduzido pela massa de livros, infiltrou-se por entre as nódoas. Plasmou-se. Era uma cola nas lombadas de cada livro e vegetou e respirou a poeira de cada estante. E velou. Uma célula morta desenhava um nome, uma partícula de livro. Aos poucos, o sonho se repetia. Alimentava o desejo de ser livro. E cheirava a poeira, e voltava para a cama. E voltava para a cama. A pele amarelecia. Páginas de um livro velho. Os conectivos o abandonavam. Apenas uma sonoridade, distante, monossilábica, o deixava atônito. O sonho, uma enchente de palavras, estados, imagens. Miragens. Sons de ciclones. Borboletas dançavam acima das luminárias da livraria. Os tacos rangiam com o andar das traças pesadas, paralíticas. E agora pára. Poeira.

2 comentários:

Gustavo do Carmo disse...

Legal o conto. Faz tempo que eu não lia um conto seu.

Anônimo disse...

oi flávio, gostei da tua escritura. A faca, o sonho e a poeira-rotina formam um bela metáfora. Ainda bem que a vontade produzir seus textos -arte estpa voltando. Mto bom Beijocas