sábado, 12 de maio de 2012

Sexta-Feira

É sexta-feira 
e crescem os ruídos lá fora.
Neste cair de noite 
me sinto Hitchcock 
percustrando no vazio, 
não as janelas, 
mas as almas dos demônios
que rimam em minha cabeça 
insanidades que não quero
e não devo cometer.

Gina está sentada no coreto da praça São Salvador,
e ouve a mais nova sensação da cidade cantar
e bebe goles breves de cerveja no gargalo.
Rosana chamou seu par para dançar um forró em São Cristóvão,
o bate coxa escorre o suor em sua saia
já colada na perna.

A noite está quente,
a lua me morde a nuca,
e minha cabeça rebate, rebate.
Hoje será uma noite da qual me restará
o sábado, o acordar e o agradecer.

O cão rosna,
penso nas antiguidades
da feira da praça XV.
O cão rosna
e sorrio para a atendente das lojas americanas.
O cão rosna um pedaço de pau
para estalar a cabeça de alguém.

Ouço um correr de persianas,
há lá fora uma sombra, espreita,
está no sétimo andar do prédio da frente.
Não a vejo, não, mas ela lá está,
me olha e imagina o que teclo, creio.
Sabe meus hábitos, sabe o que não sei,
o que não vejo nem quando falo contigo,
aqui, nesses versos que se perdem,
nestes demônios que desabafo,
para que estejas, finalmente,
liberta deste poema que sou hoje.

Flávio Corrêa de Mello

Nenhum comentário: