sexta-feira, 13 de agosto de 2010

sexta-feira 13

A noite caiu silenciosa na cidade. O vento silvava pelas esquinas, pelas ruas. Pierre arrastava os dois erres nas costas, seus pés chapeavam no chinelo a poeira suada. Era uma sexta-feira 13 do mês do desgosto. Muitas folhas de amendoeiras esvoaçavam na rua, algumas iam em sua direção. Ele se desviava lentamente levando o peso de seu corpo de uma semana de trabalho pesado ora para esquerda ora para direita. Naqueles instantes, assim corria também sua cabeça: ora para esquerda, maldizendo o que deixara de ser, ora para direita, contente por não ter assumido compromissos de uma agenda lotada. Aparou-se em uma árvore para fugir de uma lufada que o surpreendeu. Talvez tenha sido o vento mais-mais forte da noite ou ainda não... ou ainda sua cabeça iria latejar mais e mais e o braço tornar-se-ia tão dormente que Pierre teria de apoiá-lo na protuberância da imensa barriga, escondendo o dedo no umbigo. Olhou à procura de um abrigo que fosse, uma marquise, uma reentrância qualquer, mas nada, apenas lhe restava aquela árvore. Em um átimo de segundo tudo desaparecera, as ruas, os gradeados dos prédios e das janelas. Agora uma neblina enovelou Pierre e a árvore. Dos sulcos da árvore escorreu um musgo de sangue e micróbios e bactérias purulentas. Era sexta-feira 13 e Pierre devaneava. Via sua morte se aproximando e ela não tinha aspecto de bruxa ou de morte com capuz e ceifadeira. Tinha sim um rosto de juventude e cabelos negros, de namoradas, de bolinho de arroz na casa da avó, um cheiro de saudade, de jogo de pedrinhas com os amigos e de missa aos domingos, dos pequenos furtos e beijos roubados. Se sentou impotente, fechou os olhos e deixou que todas suas lembranças amainassem. Assim o espírito aquietou. Mais ou menos umas duas horas depois, umas luzes vermelhas se aproximaram dele, era o SAMU que chegara para ver o corpo daquele homem quase pregado a árvore, sentado no meio das pedrinhas do canteiro. E lá estava Pierre que arrastava os erres pelas costas, e o enfermeiro da ambulância ainda comentou: Esse daí parece que morreu querendo esquecer seus erros.

2 comentários:

Alexandre Brandão disse...

Agora estou quites com sua visita. E vou colocar seu blog entre os meus preferidos.
Abraços,

Flávio Corrêa de Mello disse...

Olá Alexandre e seja muito bem vindo. Abraços!