domingo, 11 de maio de 2008

O LONGO ABRAÇO

Houve um abraço. A ligadura do corpo é o entorno da nuca, dos cabelos que esvoaçam, enquanto fico deitado na cama imaginando uma coceira que não será amparada por unhas rosas.

Parece que teu corpo passeia por aqui, ainda. Parece que está preso à redoma de vidro cultivada no hábito de levantar às seis horas da manhã e nos banhos de bacia d’água quente e nos folhetos religiosos espalhados pelo chão, agora, cheio de baratas mortas.

O telefone chama. Perguntam por você. Foi para os mares úmidos de Marte, digo. O telefona chama de novo (ultimamente, a tia telefona aos domingos e pergunta se estou bem). Sim, estou, mas nosso vizinho aqui do lado abriu os pulsos, não agüentou a bipolaridade. Ela manda um abraço.

A coceira, agora, é na barba. Há gravidade e há, também, o café da manhã de pães duros, solitários.

Ouço Elis e Tom: “Não, não pode mais meu coração/ viver assim dilacerado, escravizado a uma ilusão/ que é só uma desilusão... Vai triste canção/ sai do meu peito/ e semeia emoção/ que chora dentro do meu coração”.

Na cozinha, a caixinha de remédios, entreaberta, aguarda somente o passeio de minhas unhas por lá.

Passam-se dias e o abraço está aqui, observando o Sumaré coberto de nuvens. Destoam-se as torres, nas quais um salto acrobático seria nossa ligadura. As folhas das árvores estão imóveis. Apenas o latido esganado do cachorro do vizinho ecoando no corredor cilíndrico da casa.

Alguém tem que fazer alguma coisa com esse maldito cachorro.

3 comentários:

adelaide amorim disse...

Oi, Flávio. Bonito texto, viu?
Não sabia que você tinha publicado na Inimigo Rumor, que legal. E a Bagatelas, como vai? Avisa se tiver nova edição.
Beijo pra você.

Luciana Vieira disse...

Muito bom, Flavito. Vou acompanhar a trajetória.
Beijos

Lu...

marcelo disse...

coincidências ?

Comecei a ler o longo abraço as 4:00 da manhã no sofá frio da sala, embalado pelo rio movediço sentia que os textos passavam através de pequenos "quadros" em minha mente, até que por coincidência o "latido esganado do cachorro do vizinho" também começou a ecoar no corredor !!

..."Alguém tem que fazer alguma coisa com esse maldito cachorro" ah!! isso foi real demais !

Gde Abraço
komarov