quinta-feira, 11 de junho de 2009

Dossiê Ditadura: Mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964 - 1985


Acabei de receber um email de Marcelo Morel. Ele nos lembra que:
Acaba de ser publicada a edição AMPLIADA do “Dossiê Ditadura”. Esta edição, a segunda, ACRESCENTA NOVAS histórias de mortos e desaparecidos políticos no Brasil e tem prefácio de Paulo Evaristo Cardeal Arns – Arcebispo Metropolitano de São Paulo e Fabio Konder Comparato.

Como o acesso aos arquivos oficiais ainda é dificultado, “Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)” conta com informações coletadas por meio de pesquisas, conversas e troca de correspondência com parentes, amigos e ex-presos políticos. O lançamento é da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e IEVE (Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado).

Dados de catalogação:
Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)
2ª Edição revista, ampliada e atualizada
Org. Criméia de Almeida, Janaina de Almeida Teles, Suzana K. Lisboa e Maria Amélia Teles
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo / Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos / IEVE - Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado
772 páginas R$ 60,00

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Na década de 1970, as famílias de mortos e desaparecidos durante o regime militar iniciaram a busca, difícil e dolorosa, de informações sobre as circunstâncias dos crimes. A missão era não somente esclarecer os acontecimentos, localizar restos mortais e identificar os responsáveis, mas principalmente preservar a memória do que ocorreu e, assim, contribuir para a difusão de uma cultura de defesa dos direitos humanos.

“Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)” é resultado desse trabalho incansável e sofrido, empreendido por uma comissão de familiares, muitos deles também vítimas da violência. Trata-se de um levantamento exaustivo e abrangente, cuja segunda edição, com incontáveis acréscimos, foi feita pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e IEVE (Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado).

A primeira edição, após quase duas décadas de buscas por informação e algumas versões preliminares, foi publicada em 1995. A luta por esclarecimentos, porém, nunca cessou. Esta nova edição, revista e ampliada, reúne histórias ilustradas de 436 mortos e desaparecidos durante o regime militar. No Brasil, são 396, sendo 237 mortos e 159 desaparecidos políticos --desde a última edição, novas investigações acrescentaram as histórias de 69 pessoas, além de terem ajudado a corrigir várias das versões anteriores.

No exterior, há 30 casos, incluindo mortos em decorrência de seqüelas de tortura ou de acidente no exílio. Há, ainda, 10 pessoas que morreram antes do golpe.

“Algumas pessoas que pensávamos terem sido mortas na rua em tiroteios foram na verdade presas, torturadas e executadas. Lembro que foram 132 casos em que provamos serem mentirosas as versões da ditadura de suicídios, atropelamentos e tiroteios”, afirma uma das quatro responsáveis pela redação final do livro, Suzana Lisboa, ex-guerrilheira cujo marido foi a primeira vítima a ser reconhecida oficialmente, em 1979.

Este número de vítimas ainda não é definitivo. Não foram esgotadas as possibilidades de pesquisa e investigação, como as realizadas nos arquivos do antigo SNI, por exemplo. Nem foi possível, também, o acesso aos arquivos militares. É o que diz Criméia de Almeida, outra das responsáveis pela redação final do livro. Sobrevivente da guerrilha do Araguaia, ela perdeu o marido e o sogro: “Os arquivos nos são sistematicamente negados sob a alegação de que não existem, até mesmo quando ganhamos na justiça esse direito como é o caso do Araguaia, em outubro de 2003. Até hoje a sentença não foi executada”.

Grande parte das informações, segundo ela, foi obtida, direta ou indiretamente, com ajuda dos familiares. “Nossa meta futura é fazer com que os arquivos sejam realmente abertos e o país tenha uma Comissão de Verdade e Justiça que esclareça as circunstâncias em que se deram as mortes e desaparecimentos e puna os responsáveis por tais crimes”.

Ao comparar os dois momentos, o da primeira edição do “Dossiê Ditadura” e o atual, Criméia de Almeida diz que houve avanço, mas “num ritmo muito aquém do que seria necessário ou desejável numa democracia”. Para Suzana Lisboa, o Brasil está muito atrás dos países da América Latina. Desde a última edição, as denúncias aumentaram, vale destacar, porque outros países têm pedido a prisão de agentes do estado brasileiro.

No livro, organizado cronologicamente, cada vítima tem sua história de vida e luta contada. Estão lá membros de partidos, militantes de grupos de esquerda e de movimentos sociais, além de outros que, sem qualquer atividade política, foram mortos “por acaso”, por terem sido confundidos. Existem casos famosos, como o do Capitão Lamarca e Iara Iavelberg, mortos na Bahia no começo dos anos 70, os dos participantes da guerrilha do Araguaia, que resistiram até 1974, e o do jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975. O livro inclui também boxes temáticos que ajudam a contextualizar os crimes e a luta dos familiares, tais como aqueles que tratam do AI-5, do Congresso da UNE em Ibiúna, da Campanha pela Anistia, da Crise dos Desaparecidos de 1975 e das tentativas de criar a CPI da Tortura.

No prefácio à nova edição, o jurista Fábio Konder Comparato lembra que, ao ler qualquer das páginas, é praticamente impossível evitar as lágrimas. Porém, acrescenta ele, a consciência ética deve nos levar além de reações emocionais. Afinal, há várias perguntas que permanecem: “Por que razão tudo isso aconteceu entre nós durante anos, sob o olhar indiferente da maioria esmagadora da população? É decente virar as costas para essa fase ignominiosa da história brasileira, sem se importar com a identificação e a punição dos mandantes, financiadores e executantes de todos os crimes aqui descritos?”, diz.

Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo --e, assim como Konder Comparato, uma das vozes mais ativas na luta pelos direitos humanos--, ressaltava já no prefácio à primeira edição que este livro, “de dor e melancolias”, surgia para “fazer pensar e fazer mudar o que deve ser mudado em favor da vida e da verdade”.

Por meio do site http://www.desaparecidospoliticos.org.br/, mantido pelos familiares, tem sido possível receber informações. Se a redação final contou com quatro pessoas, o levantamento teve –e continua a ter -- a contribuição de incontáveis participantes.


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Lançamento do livro no Rio de Janeiro:
Livraria da Puc- Gávea. 12/6 Sexta-feira: 17:30h




sexta-feira, 5 de junho de 2009

LUZES ACESAS

Amanhece na casa
e sobram luzes acesas.
São várias. Pálidas.
Pouso o corpo
em uma fístula
matutina de sol.
Sacode a mente, aninha
a ambrosina que serelepe
me aquece de um frio
quase invernal.
Mas o tempo,
o tempo presente
nestes poemas
não são luminosos,
tão pouco contém
espuma e sangue,
são tempos de espera,
de espera.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os Bagateleiros da bagatelas

Parece que estes dias tá pintando uma nostalgia forte e coletiva. Parte da antiga turma está se comentando, se revisitando na rede e relembrando alguns dos momentos vividos em 2005 e 2006, quando fizemos a aglutinação/movimento Bagatelas. Márcio Calixto postou um texto no seu Pictorescos sobre a escrita dos atalhos de Tatiana Carlotti. E realmente, a moça "filha de fila de ônibus e cartão de ponto" está se superando, atalhos urbanos é um blog de primeira qualidade, repleto de crônicas que me fazem respirar sampa pelos poros. Sem perder tempo, a caríssima blogueira aproveitou para levantar a bola, empurrar a lebre e retornar a gentileza: Não só agradeceu a lembrança sempre minuciosa e crítica de Calixto, como alinhavou o rumo de alguns outros bagateleiros. Valeu garota!

Não vou delongar este diálogo dos dois. Basta visitá-los.

Fazer a Bagatelas foi por demais para a minha pessoa. E depois de quase três anos, quem sabe dá para fazer uma síntese sobre o que foi a Bagatelas! (claro que é minha ótica, outros participantes dessa história também possuem seus prismas de visão).

Para mim, a Bagatelas foi um projeto com dois objetivos bem aglutinados: estimular a leitura e divulgar os parceiros que participavam do projeto. Para isso, atuamos em três frentes específicas:
1) A internet:
Nela, cada participante tinha o "compromisso" de postar semanalmente um texto. A internet era a ferramenta de aglutinação dos escritores. A construímos de modo geográfico, inclusive, já que os participantes estavam espalhados pelo Brasil, Portugal e Guiné-Bissau. Este princípio geográfico, facilitado pela rede, nos possibilitou trabalhar o conceito de aproximação do universo lusófono. Em sua maioria, os escritores da bagatelas produziam para seus respectivos blogs, o que aumentou a divulgação do núcleo bagateleiro.
Através do nosso sítio, realizamos 2 concursos de contos via rede. Aqui no Rio, recebíamos os contos e os analisávamos isentamente sem conhecer o autor, a única exigência aos particpantes era o uso de pseudônimo e as custas do envio do material. A premiação era a publicação na revista Bagatelas. Na net publicamos duas entrevistas. Uma com o escritor Ondjak e outra com Godofredo de Oliveira Neto.
2) A revista:
Na revista publicávamos os contos inéditos dos participantes e convidados. A estrutura editorial da revista era: 1 entrevista com um escritor já reconhecidamente presente no mercado literário + contos dos participantes + 1 ensaio crítico + 1 pequeno texto de um escritor já reconhecidamente presente no mercado literário + 1 conto de autor premiado em nossos concursos.
Além dos bagateleiros, participaram das revistas através de entrevistas ou enviando contos, os seguintes autores: Marçal Aquino, Márcia Denser, Marcelino Freire, Pedro Juan Gutierrez, Antônio Torres e Luis Ruffato e Sérgio Sant'anna.
A revista era vendida por 3,00. Fizemos 3 números.
3) Encontros Bagatelas:
Encontros que realizamos na livraria Imperial, no Rio de Janeiro. Convidávamos algum autor(a) para nos falar de seu processo de criação e de sua obra. Era um bate-papo informal, pois a idéia nunca foi de fazer um mega evento. A idéia era a intimidade. Participaram dos eventos os seguintes convidados: Alberto Mussa, Heloísa Seixas e Ruy Castro, Antônio Torres, Sérgio Sant'anna, Flávio Moreira da Costa, Zetho Cunha Gonçalves, Dodô Azevedo e Mauro Ventura.
Partiparam em algum momento da bagatelas os seguintes escritores:
Rio de Janeiro:
Raphael Vidal, Luciano Silva, Márcio Calixto, Miguel do Rosário, Camilla Lopes, Nilovsky, Eloise Porto, Antônio Mas, Ernesto Aguiar, Jorge Souva, Douglas Evangelista, Júlio César Corrêa e eu.
São Paulo:
Tatiana Carlotti, Rogério Augusto e Bianca Rosalem.
Rio Grande do Sul
Emerson Wiskow.
Paraíba:
Amanda K.
Bahia:
Rodrigo Melo.
Portugal:
Luis Felipe Cristovão e Jorge Flores.
Guiné-Bissau:
Waldir Araujo.
Acho que é isso. Em suma, rolou muitas coisas no inside da Bagatelas, mas isso é outra história.

A ÁRVORE

Ponto final. Desci:
Em frente uma árvore me olhou,
robusta e desgrenhada
sua sombra me envolveu
como o útero de minha mãe sorrindo
e disse: esta rua é minha,
aqui tem grito e desatino,
reza e menino órfão,
nao tem manga nem pitanga,
tem flores na esquina,
gato pardo e restaurante chinês.
Nesta rua do alto vejo tudo
e sem estricnina ou outra ina
beijo tua mulher na varanda.
Naquele instante embasbaquei
e a abracei com o mundo
de meus braços.

terça-feira, 2 de junho de 2009

AMIGO NOTURNO

No ventríloquo esquerdo, bem abaixo
tem uma vozinha que arfa, esparsa e arfa.
Ela mistura-se ao princípio do sono, fio
engasgado que ilumina as ruas de Orfeu.
Assustado, desabo na cantilena da vozinha
e me vejo inquirido e culpado, desastrado.
Em horas, a vozinha nutre um corpóreo
malsão feito de carapinha e dentes cariados
e soçobram ao lado da cama os restos de cinzas,
flores e dissabores de um dia já apagado
e mal-vinda a noite que amanhece
é ali que ela me esclarece as pálpebras
e os segundos que passo vendo
escuro diante dos meus pesadelos.