Rio 1/4/09.
Do meu caderno de anotações alguns dilemas, dúvidas, proposições e uma confissão: buscar uma escrita que resuma meus anseios. Que seja amalgama e síntese de minhas próprias concepções literárias. E que eu me desrespeite, me inconforme e desconfie do que escrevo. Ir no fundo das minhas confissões e depois retrabalhar tudo. Ourivezar com ternura, mas rígido. Sair do meu mundo de aparências. Sair daquilo que eu quero aparentar ser literariamente. Não ser beletrista. Combinar a prosódia com a riqueza de imagens, trabalhar os elementos imagéticos combinando-os com ação. Minha poesia tem verbo. Há quatro anos trabalho no Rio Movediço, em alguns poemas não lembro das células iniciais. Por outro lado, ainda visualizo os nichos em alguns outros poemas. Pensar o Todo do livro, o percurso do sumário, cada poema tem que ter um "link", uma corrente co-sanguínea. Não há como negar, o livro agora está carregado de Jorge de Lima, de Pessoa, precisa de um pouco de Pavese. Vem naturalmente. Flui naturalmente, mas também é firme como gelatina. É montanha russa. Corredeira. Procuro evitar a experiência concreta, embora tem um ou outro poema de Haroldo de Campos que gruda no meu cabelo como chiclete. Sofro, sofro esta loucura de pré-escrita, de ranhura, de estabelecimento de conceitos antes da escrita. É o atrito da caneta no papel antes do atrito do dedo no teclado. É o atrito e é para ser rasurado. Saber que este caderno é um apanhado disperso, caldeirão no qual deposito qualquer espécie de pensamento, de contas a pagar, de telefones, de tudo, bolas! É o processo contínuo de escrevinhar. Na verdade, este caderno vermelho é o meu compromisso de intensificar meu ato de escrita, de escrever mais, mais, mais. Encontrar um horário para escrever é meu dilema. Faz-se necessária a disciplina. Duas horas por dia de escrita. Estabelecer um prazo para o término do livro. Sim, é isso. Mas quando, quando implementar...?