EPILEPOESIA
No álamo, no páramo
e nas proximidades do terceiro ventríloco
e do sulco que os separa,
acham-se importantes núcleos do sistema.
Aí se encontram
os centros térmicos do sonho.
Ao lado deles, os centros voluntários,
cuja artificial mecânica
provoca atividades em várias regiões,
surgindo assim as descargas elétricas
e as visões oníricas, poéticas.
CINCO MOMENTOS DE UM PÁSSARO NOTURNO
a San Juan de la Cruz
Cinco momentos cobrem sua exatidão:
primeiro há de vir sereno na passagem,
pois o que é brusco perde a espontaneidade;
em seguida se instala intacto e atento,
os olhos repetindo sinais de sua presença;
logo abarca o mundo mas não anuncia;
só então se lança em vôo que subverte
as dimensões do dia, recolhe a aparência
Por fim alterna a sombra em luz, mas não revela
que o pouso foi completo. Incólume, se retira
Poemas extraídos do livro Narkosis, 2º edição ampliada, Olinda - 1981
Portfólio / Curricullum
sábado, 23 de maio de 2009
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Chuva Fina

Gláucia Chris está na garagem do domingão do Fausto!
Veja o vídeo por lá:
http://domingaodofaustao.globo.com/Domingao/Garagemdofaustao/0,,16989-p-V1023719,00.html
hoje, ela estará na rádio manguinhos 13:00!
hoje, ela estará na rádio manguinhos 13:00!
Cai chuva do céu Cinzento
[Fernando Pessoa]
Cai chuva do céu cinzento
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
[Fernando Pessoa]
Cai chuva do céu cinzento
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
A chuva fina polvilhando a Terra
Como cortina úmida de seda,
Atrás de si o sol radiante encerra;
Pinta de cinza o mundo em sua queda;
Confina a vida aos casacões de lã;
E nos convida à improdutividade:
Quem sabe os planos deixar pra amanhã?
Pro outro ano? Ou pra eternidade?
O tempo passa enquanto a chuva cai,
E a Terra abraça a água, e se embriaga,
E a chuva embebe (enquanto o tempo vai)
Quem não percebe qual torrente o traga:
Se a chuva fria ou sua própria dor...
quarta-feira, 20 de maio de 2009
INDECISOS - GUSTAVO DO CARMO

Caros leitores,
apresento a vocês o prefácio que escrevi sobre o livro Indecisos, de Gustavo do Carmo.
INDECISOS.
Estes Indecisos, de Gustavo do Carmo, se inserem no híbrido que existe entre a crônica e o conto. São doze histórias que transitam na urbanidade e no âmbito familiar, através de personagens e enredos variados, cujos enlaces e desenlaces se desenvolvem harmoniosamente por cada página do livro. O tema central, como próprio título sugere, é a indecisão, a encruzilhada, o momento em que o fio de lã puxa pelas duas pontas. Embora a temática reflita um processo natural do humano: a dúvida e o medo do acerto, as opções narrativas encadeadas pelo autor apontam para a simplicidade tanto na abertura quanto no fechamento dos textos, aliás, estes nos trazem surpresas agradáveis.
Em Indecisos, conta de abertura, a indecisão é nomeada claramente na escolha do nome do filho de um determinado casal. Os pais não conseguem se decidir sobre qual nome. O fato é anunciado ao leitor logo no primeiro parágrafo do conto: “(...) A terceira foi escolher o nome da criança. Durante a gravidez, pensou em vários nomes masculinos e femininos; Rafael, Marcos, Ricardo, Roberto, Reynaldo, Ronaldo, Flavia, Luciana, Marcela, Daniela... Como nasceu um menino, Arnaldo Augusto optou, pelo menos, em começar o nome com a letra R.” A pendenga da escolha do nome da criança desdobra-se na história para a confusão da troca de nomes da esposa de Arnaldo Augusto e de sua antiga namorada. A assim por diante, durante toda a história surgem dúvidas nos pensamentos do protagonista.
Uma das marcas impressas nos contos é a ironia. Gustavo a trabalha bem. Sabe empregá-la de modo sutil, sem exageros. É através dela que ele dita o ritmo das histórias. A percebemos quando a dúvida original da primeira história se mantém e se perpetua, levando o protagonista a não resolve-la, complicando ainda mais a história. Mas o que podemos esperar de um personagem que se chama Arnaldo Augusto, senão um complexo de duplicidades, enganos, dúvidas. Até nisto o autor se propõe montar o conjunto de sua literatura de modo completo.
O mosaico literário de Indecisos é direto. Neste ponto, caro leitor, você não terá muitas delongas e/ou digressões. A narrativa de Gustavo é concentrada, é cinematográfica. O autor não inventa, atém-se a história, pois é esta sua ocupação e o faz. Este precioso detalhe traz leveza aos contos. Assim, podemos ir de uma história a outra sem perdermos o sentido maior da obra, a indecisão.
Tanto o tempo quanto o cenário são duas ferramentas bem administradas. No caso do tempo chega a ser instigante como o autor o utiliza. Constantemente abrindo perspectivas novas (o tempo é um dos responsáveis pelos efeitos suspensivos que temos ao ler cada texto). Em diversos contos do livro, os narradores e os personagens refazem suas vidas, buscando nas reminiscências as saídas para seus conflitos. Sim, é recurso clássico, mas bem feito. No conto Com muito orgulho! O tempo é tão presente que se transmuta nas duas equipes de futebol: o time presente e o time futuro. Há o jogo. Há o tempo: 46 minutos da segunda etapa. Há o árbitro, o nosso protagonista que refaz em segundos o percurso de sua vida: “Lembrou dentro de uma cestinha de vime, na porta de ferro vazada, protegida por um vitral azul de um casarão. Ele, bebê, protegido por uma manta de lã branca. Não havia um único bilhete. Nem uma única mamadeira. O recém-nascido chorava de fome.”
Por último vale ressalvar que Gustavo tem pleno domínio de sua técnica de criação. Este seu segundo livro nos faz ansiar pelo próximo e desejar novos vôos, novas investidas na literatura. No mais, caro leitor, o que vale mesmo é passar decididamente este página e iniciar a leitura dos contos.
Boa leitura!
Estes Indecisos, de Gustavo do Carmo, se inserem no híbrido que existe entre a crônica e o conto. São doze histórias que transitam na urbanidade e no âmbito familiar, através de personagens e enredos variados, cujos enlaces e desenlaces se desenvolvem harmoniosamente por cada página do livro. O tema central, como próprio título sugere, é a indecisão, a encruzilhada, o momento em que o fio de lã puxa pelas duas pontas. Embora a temática reflita um processo natural do humano: a dúvida e o medo do acerto, as opções narrativas encadeadas pelo autor apontam para a simplicidade tanto na abertura quanto no fechamento dos textos, aliás, estes nos trazem surpresas agradáveis.
Em Indecisos, conta de abertura, a indecisão é nomeada claramente na escolha do nome do filho de um determinado casal. Os pais não conseguem se decidir sobre qual nome. O fato é anunciado ao leitor logo no primeiro parágrafo do conto: “(...) A terceira foi escolher o nome da criança. Durante a gravidez, pensou em vários nomes masculinos e femininos; Rafael, Marcos, Ricardo, Roberto, Reynaldo, Ronaldo, Flavia, Luciana, Marcela, Daniela... Como nasceu um menino, Arnaldo Augusto optou, pelo menos, em começar o nome com a letra R.” A pendenga da escolha do nome da criança desdobra-se na história para a confusão da troca de nomes da esposa de Arnaldo Augusto e de sua antiga namorada. A assim por diante, durante toda a história surgem dúvidas nos pensamentos do protagonista.
Uma das marcas impressas nos contos é a ironia. Gustavo a trabalha bem. Sabe empregá-la de modo sutil, sem exageros. É através dela que ele dita o ritmo das histórias. A percebemos quando a dúvida original da primeira história se mantém e se perpetua, levando o protagonista a não resolve-la, complicando ainda mais a história. Mas o que podemos esperar de um personagem que se chama Arnaldo Augusto, senão um complexo de duplicidades, enganos, dúvidas. Até nisto o autor se propõe montar o conjunto de sua literatura de modo completo.
O mosaico literário de Indecisos é direto. Neste ponto, caro leitor, você não terá muitas delongas e/ou digressões. A narrativa de Gustavo é concentrada, é cinematográfica. O autor não inventa, atém-se a história, pois é esta sua ocupação e o faz. Este precioso detalhe traz leveza aos contos. Assim, podemos ir de uma história a outra sem perdermos o sentido maior da obra, a indecisão.
Tanto o tempo quanto o cenário são duas ferramentas bem administradas. No caso do tempo chega a ser instigante como o autor o utiliza. Constantemente abrindo perspectivas novas (o tempo é um dos responsáveis pelos efeitos suspensivos que temos ao ler cada texto). Em diversos contos do livro, os narradores e os personagens refazem suas vidas, buscando nas reminiscências as saídas para seus conflitos. Sim, é recurso clássico, mas bem feito. No conto Com muito orgulho! O tempo é tão presente que se transmuta nas duas equipes de futebol: o time presente e o time futuro. Há o jogo. Há o tempo: 46 minutos da segunda etapa. Há o árbitro, o nosso protagonista que refaz em segundos o percurso de sua vida: “Lembrou dentro de uma cestinha de vime, na porta de ferro vazada, protegida por um vitral azul de um casarão. Ele, bebê, protegido por uma manta de lã branca. Não havia um único bilhete. Nem uma única mamadeira. O recém-nascido chorava de fome.”
Por último vale ressalvar que Gustavo tem pleno domínio de sua técnica de criação. Este seu segundo livro nos faz ansiar pelo próximo e desejar novos vôos, novas investidas na literatura. No mais, caro leitor, o que vale mesmo é passar decididamente este página e iniciar a leitura dos contos.
Boa leitura!
terça-feira, 19 de maio de 2009
Nas margens do rio
O tempo é nublado e mormaço. Tem alguns zumbidos de mosquitos estalando próximo ao pescoço. O barulho do rio movendo-se. Sentado na margem do rio, entre o capinzal que esconde insetos e anfíbios escorregadios, ele observa o marolar. A roupa está esfarrapada. A camiseta regata: amarela. A calça de tons marrons tem mais do que a cor somente, tem também uma pasta viscosa colada ao tecido. Não há cheiros. Uns peixes nadam nas bordas do rio. Peixes escuros e velozes, passeiam num ir e vir constante, movimento migratório. São muitos e aproximam-se dele, olham-no certeiros, e depois partem em direção ao desconhecido, seguindo o fluxo das águas, esgueirando-se entre as rochas e as algas, nadando nas corredeiras.
Do outro lado existem árvores com jeito de esquecidas, suas folhas caídas emolduram o tronco. Em algumas, as folhas descem da copa como uma massa amarronzada ou areia movediça, acúmulo de húmus, de vermes, de minhocas, de vida, mas não uma vida sólida, embora consistente, apesar de líqüida também, uma vida espessa que se expande pelas árvores e se mistura ao solo. Vida esquiva e escorregadia.
Há na largura de uma margem até a outra uma medida que não se escandeia por ninguém, só por aqueles olhos, únicos olhos presentes no ato e no dia desconhecido. Olhos cheio de artérias saltando por fora das pupilas. No meio, pulsando velozmente, passa o rio que ele não sabe onde nasce, nem onde finda. Mas do lado em que ele se posta de cócoras num movimento encarquilhado cheio de curvaturas, ele tenta auscultar com a vista a longa passagem que se delineia de um ponto que vai giratoriamente o circulando, colocando-o no centro de tempo sem sol. Ele não visualiza o que está se descortinando por detrás da margem do rio movediço porque não está consciente, porque neste momento ele é ausência, vácuo e ponto suspenso. É sono. E balança na cama de um lado para o outro lentamente, como se estivesse em um barco deslizando pelo rio, sendo ninado. Sonhando.
Do outro lado existem árvores com jeito de esquecidas, suas folhas caídas emolduram o tronco. Em algumas, as folhas descem da copa como uma massa amarronzada ou areia movediça, acúmulo de húmus, de vermes, de minhocas, de vida, mas não uma vida sólida, embora consistente, apesar de líqüida também, uma vida espessa que se expande pelas árvores e se mistura ao solo. Vida esquiva e escorregadia.
Há na largura de uma margem até a outra uma medida que não se escandeia por ninguém, só por aqueles olhos, únicos olhos presentes no ato e no dia desconhecido. Olhos cheio de artérias saltando por fora das pupilas. No meio, pulsando velozmente, passa o rio que ele não sabe onde nasce, nem onde finda. Mas do lado em que ele se posta de cócoras num movimento encarquilhado cheio de curvaturas, ele tenta auscultar com a vista a longa passagem que se delineia de um ponto que vai giratoriamente o circulando, colocando-o no centro de tempo sem sol. Ele não visualiza o que está se descortinando por detrás da margem do rio movediço porque não está consciente, porque neste momento ele é ausência, vácuo e ponto suspenso. É sono. E balança na cama de um lado para o outro lentamente, como se estivesse em um barco deslizando pelo rio, sendo ninado. Sonhando.
sábado, 16 de maio de 2009
Rio de mim
Um rio flui dentro do meu corpo.
Chora, ri e se alegra.
Não sei onde nasce.
No coração que bombeia sangue
ele também está
no fígado, no pâncreas...
Está em todos os lugares
cheio de peixinhos.
Misturam-se o sangue e os peixinhos
formando um oceano de emoções
que desenha letras, palavras,
orações e poemas.
O rio é um poema agradecido
saindo como gotas salivares
explodindo por minha boca a fora,
regando plantas e flores.
Chora, ri e se alegra.
Não sei onde nasce.
No coração que bombeia sangue
ele também está
no fígado, no pâncreas...
Está em todos os lugares
cheio de peixinhos.
Misturam-se o sangue e os peixinhos
formando um oceano de emoções
que desenha letras, palavras,
orações e poemas.
O rio é um poema agradecido
saindo como gotas salivares
explodindo por minha boca a fora,
regando plantas e flores.
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