Conheci Brasil Barreto no início dos anos 90. Na época, eu estava fissurado nos círculos de recitação do Rio. Do castelinho à Febarj, passando pelo Museu da República, assistia as performances dos poetas popularmente chamados de marginais. Para mim, eles eram os resquícios das gerações de 70, os que popularizaram os panfletos literários, as cópias mimeografadas. Lá, naqueles palcos improvisados, se apresentavam poetas da estirpe de Flávio Nascimento, Zeca Magalhães, Lúcia Nobre, Samaral (editor da revista Urbana), Brasil e outros.
Eles integravam um corpus de ativismo cultural maior ainda. Quase todos já eram quarentões e já tinham, como o próprio Brasil define, passado das nomenclaturas de Poetas do Mimeógrafo para Poetas Marginais e ultimamente recebiam a alcunha de Independentes - talvez por razão de o grupo acima citado não ter sido assimilado pela academia nem pelos corpos editoriais.
Desde meados dos anos 70 muitos desses poetas faziam um trabalho extremamente artesanal. Eles produziam com esmero suas publicações e as faziam circular nas ruas. Vendiam-as nos bares "in" da juventude, nas praias, nos cinemas, tal como fazem os poetas que estão na porta do CCBB. Brasil foi além, ele se especializou na produção de livros artesanais, seus livros sempre primam em cada tiragem por inovações no design estético e econômico. Já faz algum tempo que não nos cruzamos na cena carioca, justamente porque me afastei do circuito, parti para outras paragens. Ainda me lembro do Brasil em 2005, quando tomamos uma cervejinha no Lins Vasconcelos. Acho que ele deu uma acalmada no esporte boêmio, se ele não deu, não passa de tagalerice de minha parte, já que eu dei a parada, o stop.
Os poemas de Brasil remontam o ideário romântico com assertivas reflexivas existênciais. Pode-se combinar o Bandeira ao Varela num de seus campos de influência. Diferente de muitos poetas de sua geração, que ventilavam o lastro da oralidade como matriz criadora dos poemas, Brasil força uma viagem interior na qual o "onde" que o seu "eu" pode chegar não está muito longe do ponto de partida, visto que está tonto de poesia, embriagado de orgias e carrega muitas dores do mundo. Ainda assim o poeta não despreza a melodia, a linha ritmica do poema. Quando há quebras, elas são sutis, sob medida.
Um dos poemas que mais me encantam de Brasil é Poças d'água. Nele há uma condensação do sentido. O elemento água está presente desde o início até fim.
Poças d´água
Pasmo nessa tarde de um sábado invernal
sob uma chuva, molhando o chão de pura
nostalgia, sigo em frente nessa trilha
salto poças d'águas, numa sequência
mágica do jogo de amarelinhas, num
pérpétuo céu e inferno, droga de azar.
Meus rompantes febris se alternam com o frio
trago comigo uma pessoa frienta e incandescida,
insistente na difícil arte de enganar destinos.
Sigo avante, mapeando novas rotas estrelares.
Retorno para casa, após passar pelos imbecis,
que buscam sentidos em minhas aliterações...
Lembro a imagem de suas máscaras cínicas.
Peço aos céus, uma manhã, vestido de sol
dando conta de todas as minhas cismas vis e vãs
só para ver a vida fluir nos saltos de uma rã.
A percepção andarilha do Brasil o sitia no Rio. No Rio o que ele vê é modernismo, é o açoite de quem precisa embriagar-se, como no poema veloz-cidade:
Veloz-cidade
Quem sabe existe
um poema parodiando
o nosso cotidiano.
A cidade apressada
entardece as horas,
logo a boca da noite
a engolirá em velozes
amargos goles...
Sabemos dos perigos
que nela rondam,
a leptospirose
tem seu lugar comum.
O amor é vendido
a cada esquina,
fragmentos esquecidos.
Aos meus olhos cenas sutis
a vida nua e crua,
anseia no meio da praça
de mãos dadas com suas gurias
ofertando sexos mirins,
a vida é essa camarada
que passa nua nos becos
dos seus santos dias.
No poema anônimo, publicado originalmente na revista Urbana 15, o poeta continua suas aventuras pelas ruas do Rio. A temática é similar ao exposto acima. A cidade envolta pelo olhar flaneur do poeta é dolorosa. Também há no fim do poema a mesma reflexão que finaliza a outra obra, a religiosidade que habita a cidade e que coexiste penosamente no poema.
Anônimo
Dorme esquecida a cidade
um sono cinzento,
de domingo chuvoso.
Como anônimo, círculo
procurando o cintilar do verso.
O medo me acena
a cada esquina;
contorno a vida:
-Via estúpida -
Plugada na marginal
do meu pobre peito,
onde se aninha uma dor
que ora ainda desconheço.
Doce é o amor que se basta,
fruto que devoro estremecido,
persiguindo pegadas
num labirinto de véus.
Então direi: duro é o chão
sem a leveza dos céus.
Estes são alguns dos vários poema de Brasil. Sua obra é extensa, porém difícil de encontrar. Ele não anda muito na rede, salvo aqui e acolá. Sinto saudades do camarada!
A foto que ilustra o post foi gentilmente copiada do blog ser poeta ao nada, do Edu Planches.
3 comentários:
Flávio, vc está se tornando um excelente crítico literário. Seus comentários são objetivos, enxutos, sem blá-blá-blás. A sua análise não deixa de ter o toque da sua veia poética. Parabéns pelos textos relativos ao Brasil e á Rosana.
Isso aqui tá ficando cada vez melhor! Grande Brasil Barreto!
Eu estou muito orgulhoso de ler os poemas do meu avô no seu Rio movediço,belo trabalho Flávio Mello continue...um abraço amigo do leitor Daniel Barreto
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