Há tempos não via um jornal de poesia. Há tempos... Me lembro de alguns jornais que recebia aqui e acolá. Me lembro e ainda vejo na porta do CCBB e dos espaços culturais, na praia, e em alguns lugares do Rio, quando ainda me aventuro a sair de casa. Me lembro de ver os poetas, os jovens poetas vendendo seus zines xerocados, seus poemas de cabelos encaracolados e óculos e chapéus e breves costeletas cerradas. Mas são diferentes estes poetas, tem materiais diferentes também. Bem diferentes desse belo trabalho que recebi quando circulava pela praça São Salvador, dia desses, perfazendo meu itinerário de retorno à casinha.
Portfólio / Curricullum
domingo, 8 de abril de 2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Nostalgia da forma na poesia contemporânea, por Izacyl Guimarães Ferreira
Nostalgia da forma na poesia contemporânea
Todo gênero de arte procura uma forma própria para expressar-se. Assim a música e a poesia procuram um ritmo, o retorno de um som, uma frequência em busca de um módulo. Sem irmos longe demais, pode-se dizer que é do homem, do animal, de toda a natureza, a necessidade de um padrão. Cor, cheiro, qualquer sentido vivo quer é sua família, seu gênero, seu espelho natural, da raiz ao fruto. Repetir-se é perpetuar-se.
Assim a palavra em suas formas matrizes, do som ao sinal, à escrita, à poesia. Por ser espelho ou recriação ou correção da vida, a arte, mais que ser cópia ou imitação, quer alguma perfeição, como a do círculo, a clareza, quando não seu contrário destrutor de toda identificação, pois a tal ponto se chega pela negação da forma como nos extremos das artes plásticas contemporâneas, na decomposição sonora pós-atonal e, hélas, nesse silêncio gráfico que pretendeu ser poesia, o concretismo.
quarta-feira, 21 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
TODO - ERICSON PIRES
Todo - Ericson Pires
para N
TODO DIA É LONGO. Todo dia é vermelho. As linhas não
alcançam. O parto corta o meio. Limbo numa fresta. Todo
dia não termina. Todo sol é vermelho. A chuva volta. A chave
abre. A chave fecha. A porta, o caminho, o doce, úmido, vulto.
TODO DIA. Pintas na cara do dia. Encontros. Todo dia volta.
O verão é vermelho. Nada volta. Nada foi. Tudo. TODO. Todo
dia é outro. Instante vermelho. Mesmo mil vezes. Repetido.
Repetindo. De novo outro. Nenhum. Em nenhum. Nenhum
mesmo. Réstia. Restinga. Filtro branco. Fumaça de ônibus
velho. Acelerador de partículas. Todo dia encerra. Teu cabelo
vermelho. Meu mamilo vermelho. Tua unha vermelha. Minha
ponta vermelha. Vermelho são cores. Todas as cores. Todo.
TODO DIA é.
para N
TODO DIA É LONGO. Todo dia é vermelho. As linhas não
alcançam. O parto corta o meio. Limbo numa fresta. Todo
dia não termina. Todo sol é vermelho. A chuva volta. A chave
abre. A chave fecha. A porta, o caminho, o doce, úmido, vulto.
TODO DIA. Pintas na cara do dia. Encontros. Todo dia volta.
O verão é vermelho. Nada volta. Nada foi. Tudo. TODO. Todo
dia é outro. Instante vermelho. Mesmo mil vezes. Repetido.
Repetindo. De novo outro. Nenhum. Em nenhum. Nenhum
mesmo. Réstia. Restinga. Filtro branco. Fumaça de ônibus
velho. Acelerador de partículas. Todo dia encerra. Teu cabelo
vermelho. Meu mamilo vermelho. Tua unha vermelha. Minha
ponta vermelha. Vermelho são cores. Todas as cores. Todo.
TODO DIA é.
sexta-feira, 9 de março de 2012
O marrento
Quem já viu um cachorrinho de olhos esbugalhados, andar marrento e patas arqueadas circulando pelo bairro de Laranjeiras? Ele está temporariamente hospedado em minha casa. O simpático marrento, o romarinho, tem por hábito latir nas madrugadas para qualquer barulho que surja... late mas não morde. Sacode o cotoco do rabo e esbugalha mais os olhos. É muito chato, o sujeito. Se aboletou por aqui e acha que é o dono do mundo (o dono do pedaço) e ai de quem diga o contrário... ele nada se incomoda em rasgar com os dentes qualquer coisa que lhe apeteça: um celular, um chinelo ou o que esteja ao alcance de sua insaciável voracidade da madrugada.
No início até que tentei ser tolerante e educado com o amiguinho, imbuí-me de cordialidade e um espírito paterno de educador. Até dei umas passeadas por aí com ele, tentei lhe ensinar a urinar com uma pata levantada, disse-lhe para fazer cocô na rua, não funcionou... Afinal, a única serventia eram os gracejos das meninas com o marrento:
- Bonitinho, diziam.
- Fofura, esse buldogue!
E então eu me empertigava e discorria um ou dois comentários amáveis a cerca do meu amigo marrento, mas era apenas isso, sem acréscimos.
Como disse a coisa não funcionou... e como ele não é meu, já viu né... por aqui não se cria. Afinal, apesar de ter compaixão por ele não há sinergia capaz de possibilitar uma convivência pacífica entre nós. S eu der bobeira, ele mija na minha cama.
Bem, o marrento está com o dead line estabelecido para ficar por aqui. Vez em quando, dou umas bananas para ele, pois sei que é a alimentação que ele curte. É o que posso fazer no instante. Em junho nos despediremos... sem culpas e sem remorsos, como sempre soube... era temporário. Tudo é temporário.
Bem, o marrento está com o dead line estabelecido para ficar por aqui. Vez em quando, dou umas bananas para ele, pois sei que é a alimentação que ele curte. É o que posso fazer no instante. Em junho nos despediremos... sem culpas e sem remorsos, como sempre soube... era temporário. Tudo é temporário.
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