sábado, 31 de maio de 2008

POEMAS SUÍÇOS - MAIO MARIA

Andei relendo o Poemas Suíços e resolvi publicar alguns poemas aqui no blog. O primeiro da série é Maio Maria.

MAIO MARIA

É maio, Maria, mês de poemas curtos
mas a deplorável
insistência de não acontecer
herança do inverno
congela tudo
inclusive poemas.

Longas são as conversas no espelho.

Maio espreita lá fora, vê!
Ele espera, com braços envolventes
propõe uma canção.

Tão mais alta, tal qual
no estalo de dedos
no toque carmim
de quem já esqueceu
Maria.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

ENTREVISTA - ANTÔNIO MÁS





Antônio Más nasceu em Minas Gerais e vive no Rio de Janeiro. Formado em publicidade, sua vida profissional sempre foi ligada ao cinema. Escreve há tempos, mas só recentemente começou a publicar. Suas experiências no cinema imprimem em seu texto a dinâmicas dos filmes de ação e aventuras.


Fale um pouco de sua trajetória do cinema à literatura.

Foi um caminho de ida e volta. Ainda criança, influenciado pela minha mãe e irmã mais velha, lia muito, de quadrinhos à clássicos, como Machado de Assis, Monteiro Lobato, Clarisse Lispector. Depois descobri Tchecov e principalmente Thomas Mann. Mas também era apaixonado pela imagem e vivia no cinema da minha pequena cidade, vendo bang - bang, Tarzan e todos os filmes que demoravam a chegar, mas um dia passavam por lá. Já adolescente me mudei para Belo Horizonte, onde, na primeira semana entrei no Cine Pathé e vi Noite Americana do mestre François Truffaut. Aí descobri que queria mesmo era fazer aquilo. Comecei com o super 8 e logo estava filmando em 16mm. Mas o prazer maior sempre foi criar as histórias e escrever os roteiros.


Por ter vindo de uma linguagem como o cinema, como você trabalha a imagem na literatura, é o seu ponto forte?

Se ao ler um livro o autor não consegue me fazer ver a cena, fecho e vou ver, ou melhor, ler outro. Então ao escrever, naturalmente procuro ver o que estou descrevendo, e a experiência com roteiros e com a técnica de transformar palavras em imagens, ajuda muito. Interessante que a recíproca, nesse caso, não é verdadeira, num filme, se a cena fica literária o resultado é ruim, falso.


Em Bárbara não quer perdão, seu romance de estréia, você nos apresenta uma história policial que tem como pano de fundo complexos simbólicos. Até que ponto você se utiliza os símbolos para constituir a narrativa?

Não me preocupo em criar uma história a partir de nenhuma teoria, ou simbologia. Neste caso específico, a narrativa se apropriou de um símbolo por ser da natureza da história. Penso que a arte, qualquer que seja sua manifestação, não deve defender teses ou conceitos, que vão aparecer naturalmente. Todas estas informações estão em quem escreve e lê, e tanto de um lado como de outro, gosto de me deixar levar pelo rio narrativo, cheio de surpresas.


Aliás, como surgiu a idéia para fazer o Bárbara não quer perdão?

Veio de um argumento que comecei a escrever para um seriado de tv, ou mesmo um filme. Em geral um argumento tem umas vinte, trinta páginas. Quando me dei conta estava com setenta páginas escritas e muita história ainda pra contar. Tomei fôlego e fui em frente. Quando fechei a narrativa, mostrei para algumas pessoas e todas disseram, isso é um romance. Daí passei alguns meses na carpintaria e decoração do texto, até ter coragem de publicar. Valeu a pena.


E os quadrinhos, o romance já está adaptado para os quadrinhos?

Estamos em negociação e como tudo nesta área, demora muito. Mas é uma idéia que vai vingar. O quadrinho brasileiro está em ascensão e a desenhista, a Lhu Pape é um geniozinho. Aguardemos pois.

Além do HQ, quais os próximos projetos para 2008?

Estou finalizando um outro romance que tem me dado um prazer enorme em escrever e acho que pode ser um sucesso, modéstia às favas. Passa-se em 1990 e o protagonista é um velho projecionista de cinema. Não é policial, mas é cheio de suspense. E tenho pela metade um outro policial com o personagem Zé Silva, um detetive brasileiro. Este personagem, aliás, está pra virar seriado para celular. Haja disposição.

domingo, 25 de maio de 2008

TRÊS TESOUROS PERDIDOS - MACHADO DE ASSIS




* Dedico este 'post' aos alunos da Oficina Literária Centro em Crônicas.


Machado de Assis é um ótimo instrumento de aprendizado para quem se inicia no hábito de escrever contos. Em toda extensão, sua obra revela as qualidades necessárias para um autor principiante refletir e tomar como norte, exemplo a seguir. Ele é mestre. Domina as técnicas narrativas. Maturou-as na leitura dos clássicos, na leitura de seus contemporâneos, na leitura atenta e antenada, no respeito pela tradição compreendendo-a como uma forma de continuidade e inovação. Nada é desproposital. Há escolhas e decisões: a apresentação das personagens, a estrutura da narrativa, o ponto de vista do narrador, a manipulação do tempo, o desenvolvimento da intriga, a acuidade artesanal da composição dos personagens, os adereços que os compõem, a ambientação do cenário. Tudo muito bem amarrado, encadeado.

Em Três Tesouros Perdidos, publicado inicialmente em 1858, Machado, que ainda contava com apenas dezenove anos, já delineava o apuro e o corte literário que nos seduz até os dias atuais. Mesmo sendo de um momento inicial de sua carreira literária, podemos perceber no texto a ironia que permeará toda sua obra e a clareza das imagens aliadas à economia das palavras bem escolhidas e bem dispostas. O pequeno conto trata de uma traição amorosa. Logo na abertura ele nos situa de tal modo que acompanhamos os passos da personagem através do narrador:

“Uma tarde, eram quatro horas, o Sr. X... voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e ... dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.”

Como vimos acima, Machado dispõe os ingredientes necessários para seduzir o leitor e incentivá-lo a continuar a leitura. Define o tempo cronológico: quatro horas. O cenário da história: a casa do sr X. Nos dá estados emocionais dos dois personagens: Senhor X: apressado e com fome; o outro, que ainda não é nomeado, mas que já é caracterizado como instável, agitado. Além disso, o narrador nos guia espacialmente, desde a saída do cabriolé até o interior da casa. Nós temos uma gama de informações em apenas quatro linhas. Tamanha economia não se dá à toa, a abertura é uma das chaves mais importantes para definir se o conto será bom ou não. Embora não seja uma obrigatoriedade, ela deve ter em seu bojo a capacidade de nos informar e de nos preparar para a história, anunciando o que virá a seguir, a intriga.

Diferente do romance, o conto prima pela exclusão. Excluem-se diversos elementos alusivos para apenas concentrarmo-nos em uma única problemática. No caso de três tesouros perdidos o cerne é a traição através do espírito do marido traído:

- Senhor, eu sou F..., marido da senhora Dona E...
- Estimo muito conhece-lo, responde o Sr X...; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E...
- Não a conhece! Não a conhece! Quer juntar a zombaria à infâmia?
- Senhor!...
E o Sr. X deu um passo para ele.
- Alto lá!
O Sr. F tirando uma pistola do bolso, continuou:
- Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão.
- Mas, senhor, disse o Sr. X...., a quem a eloqüência do Sr. F... tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?
- Que motivo! É boa! Pois não é motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher?

Machado explora o recurso do diálogo para deslindar o cerne do conto: a traição. Assim, ao dar voz aos personagens, vai rapidamente a um dos pontos da trama: como o Sr F, o traído, tenta resolver a situação propondo a saída imediata do possível traidor, o Sr X. Além dos diálogos é interessante perceber que nesta passagem o narrador pouco se interpõe ou opina, Machado o utiliza diretamente na passagem “E o Sr. X deu um passo para ele.” e “O Sr. F tirando uma pistola do bolso, continuou:” e indiretamente, por dentro do personagem no trecho “a quem a eloqüência do Sr. F... tinha produzido um certo efeito...” .

Saber que podemos optar pelo diálogo ou pelo narrador para elucidar alguma passagem também é uma das ferramentas necessárias para o sucesso de nossa história. Neste conto Machado ainda não esmiuçava o narrador e suas potencialidades, ainda ensaiava os seus primeiros passos no mundo da literatura. Mas, certamente, ele observava, lia muito.

Um exercício interessante é montarmos dois paralelos ao escrevermos um conto. Em um primeiro plano, escrevemos a história na primeira ou na terceira pessoa, apenas a narramos. Em um segundo, vamos elaborar diálogos em cima da mesma temática. Por fim, cruzamos a narrativa e os diálogos, eliminando os excessos, percebendo em qual passagem a narrativa adere melhor e vice-versa. É trabalhoso, mas quem disse que escrever não é fruto de muito trabalho?

Outro aspecto importante é o de que nada deve ser gratuito. Tanto em prosa quanto em poesia não se pode jogar no papel personagens ou situações que não tenham resoluções ou propriedades, mesmo quando a escrita se apresenta pelo impulso do pulso na página, pelo caminho da “palavra puxa palavra”. Amarrar o texto, não antecipar o término, encaixar as partes, mesmo as díspares, para que haja um sentido de completude e de prazer máximo para o leitor. Muitas vezes essa sensação se dá pelo ritmo do texto ou pela dissonância polissêmica, mas ainda assim temos que saber se as palavras estão onde realmente deveriam estar. Reler as frases, os versos, inverter a ordem. Ver palavra por palavra.

No conto de Machado de Assis há uma passagem que nos remete ao aparecimento de um personagem, o moleque, que se permanecesse somente ali não teria nenhuma função. Para melhor compreensão, vamos retomar o fio da meada da história. O Sr. F acusa o Sr. X de estar cortejando sua esposa, a senhora Dona E. Ele deixa duas opções ao Sr. X, a pistola ou deixar a corte. Obviamente que o Sr X opta pela segunda. Previdente, o marido traído provém o Sr X com uma quantia necessária para a viagem e gastos extras. Nesse momento, X chama o moleque para deixar instruções durante sua ausência:

“ O Sr. X ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um de seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.”

O conto caminha para seu desfecho e nos sete parágrafos seguintes tomamos ciência de que o traidor não era o Senhor X e sim um amigo do Sr F, nomeado como Sr P, Capitão da Marinha. Nesse ponto, ciente de seu erro, de sua falha e de sua cegueira, nosso marido traído retorna a casa do Sr X:

“Desesperado, fora de si, o Sr F... lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas.

- Era P... que eu acreditava meu amigo... Ah Maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se a casa do Sr X... subiu; apareceu o moleque.
- Teu senhor?
- Partiu para Minas.”

Aqui vemos a retomada do moleque participando ativamente do desfecho. Como disse Tchekov: “Nunca coloque uma pistola em um cenário se não for usá-la”.

Nos dois últimos parágrafos Machado remonta o título da história, os três tesouros perdidos pelo Sr F: A esposa, o amigo e os dois contos de réis:

“- perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda a prova e uma linda carteira cheia de encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras!...”

sexta-feira, 23 de maio de 2008

LEÃO LÍRICO - ELAINE PAUVOLID

A poeta Elaine Pauvolid está lançando um novo livro., o Leão Lírico. Aí vai o recado dela:

Olá!
dia 2 de junho lanço meu livro Leão lírico e gostaria muito de contar com a presença de vocês no coquetel de lançamento!



Sobre o meu livro Márcio Catunda, Ronaldo Werneck e Bruno Candéas escreveram:

"Em Leão lírico, Elaine Pauvolid se revela na vertigem da plenitude: lúcida e lúdica, ardendo na febre da perplexidade, no espanto da trajetória que vai da insatisfação com o cotidiano à ânsia do metafísico. Imersa na pulsação da sua inquietude, exercita a sensibilidade com a consciência em vigília, em percepções clarividentes e, não obstante, perdida na vastidão do seu enlevo.
Estas evidências, que ressaltam na expressão vital dos seus poemas, retratam-lhe apaixonada e descrente, desiludida e arrebatada. O paradoxo da sua generosa dor de viver derrama-se nas confissões de uma busca obsessiva de compreender o mistério. A esperança, a fé, o asco, o desalento e a saudade são sentimentos de que se nutre a sua poesia. Poesia impetuosa e
objetiva, estigmatizada de angústia existencial."

Márcio Catunda, poeta e diplomata.

Por e-mail o poeta Ronaldo Werneck me diz:

Elaine, minha querida:

há tempos você me mandou cópia de seu livro "Leão Lírico". Só agora pude ver, enrolado que estava com vários outros trabalhos. Será um belo livro, a considerar os originais que v. me enviou. Gostei muito do desenho de capa. Sem falar dos poemas, lógico.
Destaco alguns fragmentos que marquei, e que considero "punti luminosi" de seu novo livro:

Dobrado sonho, com cuidado
ponho sob o travesseiro.
...
escovados dentes,
estourada imagem,
fechados olhos,
desdobro o sonho
de existir, suponho.

DOS MORTOS

Certos enterros são concertos:
o morto vai distante,
em forma intangível em nós se encerra.

No concreto que o coveiro
sobre a morte acerta,
vamo-nos um pouco
em nossas pétalas.

Verta inteiro, nunca metade,
este teu leite em flor,
que, muito antes de ter brotado,
em minha pele há muito arde.

São momentos onde a poesia salta dos poemas e se sobressai, soberana.
Parabéns. Me avise quando do lançamento.
Grande beijo,
Ronaldo

Ronaldo Werneck, poeta e jornalista






Bruno Candéas também leu:

UMA LEOA NA POESIA
"LEÃO LÍRICO", novo livro da poetisa carioca Elaine Pauvolid traz uma forte carga de espiritualidade; Elaine fala em intuição, desdobramentos e pede preces, pra ela e pro mundo, parece ter a certeza da rudeza do "leão" em nosso cotidiano, mas confia no forte elo e na presença infinita e bondosa que acalenta a alma.
Elaine quer ser arrebatada pela poesia, quer ser devorada por lobos que usem os lóbulos,
por isso mesmo não escancara seus desejos, tem na sutileza um aliado "lírico" e sereno.
Sem mistérios ou alardes constrói com singularidade seu universo de atuação, trata temas delicados com doçura e devoção, torna o gozo uma exaltação a existência.
Elaine quer nos abrir com uma espada, quer entrar no meio do nosso mundo, quer nomear a vida em tudo. O mundo já acabou, mas Elaine não morreu! Empunha a palavra com domínio e nos apresenta um trabalho com muita qualidade literária mas acima de tudo com um valor humano imensurável.

Bruno Candéas
Autor de "Férias do gueto", "Indigestual" e "Teatrauma" (inédito)

Sou autora dos poemas e do projeto gráfico do livro, inclusive a capa. Estou muito feliz com tudo isso, e queria muito dividir esta alegria com vocês! Não faltem! E me ajudem a divulgar!!!! A Silvana e a Mariza da Germina, já estão me ajudando.



Então está devidamente divulgado. O lançamento será na Livraria da Travessa, 2 de Junho - 20hs

quinta-feira, 22 de maio de 2008

EXERCÍCIO POÉTICO: SEM TÍTULO

hoje

sorriso esguio
um lençol de cabelos louros,
bicos de seios pontiagudos
substantivos de tessituras impenetráveis

amanhã

um subjuntivo imperfeito
reboco de paredes infiltradas em curvas arqueadas
na longitude de nossos diversos itinerários.