sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Em trânsito

Um dia de des-sóis,
Cabelos em desalinho e vento de moto,
Fumaça carburada no pulmão
E na espuma da cabeça
A pergunta de uma espelunca:
Como dizer o contido,
 que represado estoura os poros e as cervicais?
E cantar assovio de sábia, se a brita é heavy metal?
Um dia de bancos duros
e sósias das coisas mais simples,
de partilhar, de somar e de não dividir;
de teoremas e tomos e filósofos da tal tomada
de consciência de criar o comum a todos,
 de coletivamente ser,
mesmo que ainda assim,
eu fui nascido de uma única placenta
de mãe e seus dois seios.
Um dia cravo fotos de revistas
antigas na parede de um muro,
e insurjo no des-sol o desalinho
de uma gente feita para brilhar,
e paro de me ser a lâmina cega da navalha
e corto e corto e corro a notícia adiante:
PAREM DE NOS MATAR
nos campos, nas pinheirinhos,
nos mares de Marte,
na quinta marcha da moto atravessando o túnel.
Neste dia, ainda sou o braço que arrasta o guidom
no chão do asfalto,  a cinza pele de fuligem,
coberto de minério  tudo se esvai,
o des-sol é lua seca,
é minha mãe chorando
no cemitério dos meus sonhos
e a artrose do tempo dizendo:

o velocímetro parou.

FCM

domingo, 2 de agosto de 2015

Espantalhos e Girassóis



Os cacos e retalhos
estão dispostos
no milharal esquecido dos corvos.

Espantalhos e remendos,
no coração uma parede de chapiscos.

Cismas que remontam a infância:
os girassóis amarelos na paisagem do fusca
murando o meu amor dandi,
o colar de contas vermelhas atravessou o corpo,
a resina escorria no carvalho.

Mas o espantalho nunca dorme,
seus braços ondulam,
rebatem, tapas e cachos
alhures na paisagem --
apenas uma lisa tela temperada --
o sol, o girassol.

Flávio Corrêa de Mello.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

FLORES DE PEDRA

Quando se enterra,
se crava ou se escava
os dedos na terra
e se olha não a bela
mas aquela flor lenta,
e que de secas as pétalas
as pedras mais água têm;

quando o corpo é o osso
reumático, anoréxico,
e ainda a teimosia avara
que estala todo o plexo,
nervoso, perplexo,
de tudo o dificultoso
de ir à terra e revirá-la;

quando se carquilha
e já é morta a raiz,
as flores já sem vulto,
qual dentre elas levantara
diante de meus olhos
a ausência do mundo,
esse horror profundo?



Flávio Corrêa de Mello

terça-feira, 1 de abril de 2014

Baía de Guanabara

Como duas folhas jogadas ao mar,
pés flutuam, suas faces são visagens
de um cardume de personagens
que um dia mergulhou na Baía:
Mem e Estácio de Sá lambendo
os pés do Gigante adormecido,
gosto mareado, enjoo e lastros
e golfadas de plástico
no emborco da escuna.

O forte Tamandaré
já não é tanto a pedra
ou o coração torturado
de Fernando Santa Cruz
nem tampouco a morada
dos sedimentos de antigas baleias,
é agora, na secura da visão,
o entorno do lixo de águas abrigadas,
momento em que me desobrigo
de qualquer ser em que um dia sonhei:
coração torturado, irascível,
pensamento sonolento de poeta,
pasto de coisas tardias.

Mais adiante há por trás do lixo de enseada
um disco voador no chapéu de duas meninas,
voam palavras, os poemas são vassouras de mil garis
e a pá toureia no pé da praia de Icaraí
varrendo para aqui e para ali
as últimas ceroulas do baile da ilha Fiscal.

E berro debaixo da ponte,
de lá já caí e levantei
no repasto que estaca
o forte do Tamandaré,
o tesouro da Ilha Fiscal.

São dois os pés e as folhas,
miragens de como estou:
bobo da corte ou mágico de Óz,
o pilar no meio do mar,
vértebra da baía,
a ponta que liga o Rio à Niterói
e imagino: navegar à noite corrói.

Flávio Correa de Mello

domingo, 23 de fevereiro de 2014

o Homem cego lê o jornal.

É noite de sono espesso,
de decretos, de prisões,
e de palmadinhas bem batidas 

nas costas do delegado. .

É noite de bocas amordaçadas,
foguetes e bombas e gás.
O homem nu é suprimido,
o homem cego lê o jornal,
o homem crédulo vota,
o homem sorridente conta as notas.

É noite de tecer poemas em Guantánamo
e ver na televisão a novela das 9:00
e sonhar com os latidos de um cão.
A mulher diz que temos democracia,
o homem diz que faltam prisão para os presos,
o homem diz que os macumbeiros não prestam
e que os viados são doentes.
O homem cego lê o jornal.
O homem crédula vota.
O homem maquina as parcelas do carro econômico.

É noite de sono espesso,
mas todos pareciam acordados,
luzes acesas, rezas, modas vegetarianas,
cruzeiros na baía,
ossos escavados no porto,
os helicópteros viajando
para lá para cá para lá
bitucas de cigarro, tesouras e pau de arara
e o homem cego tudo crê no jornal.

É tarde, adormecida a utopia,
a hora triste do murcho ronco,
o eco do martelo na mesa,
a rosa fora da encruzilhada
é presa na lapela do homem
que escreve o editorial:
o poeta é o assassino!
E o homem cego lê o jornal.

Flávio Corrêa de Mello.