sexta-feira, 9 de março de 2012

O marrento

Quem já viu um cachorrinho de olhos esbugalhados, andar marrento e patas arqueadas circulando pelo bairro de Laranjeiras? Ele está temporariamente hospedado em minha casa. O simpático marrento, o romarinho, tem por hábito latir nas madrugadas para qualquer barulho que surja... late mas não morde. Sacode o cotoco do rabo e esbugalha mais os olhos. É muito chato, o sujeito. Se aboletou por aqui e acha que é o dono do mundo (o dono do pedaço) e ai de quem diga o contrário... ele nada se incomoda em rasgar com os dentes qualquer coisa que lhe apeteça: um celular, um chinelo ou o que esteja ao alcance de sua insaciável voracidade da madrugada.

No início até que tentei ser tolerante e educado com o amiguinho, imbuí-me de cordialidade e um espírito paterno de educador. Até dei umas passeadas por aí com ele, tentei lhe ensinar a urinar com uma pata levantada, disse-lhe para fazer cocô na rua, não funcionou... Afinal, a única serventia eram os gracejos das meninas com o marrento:

- Bonitinho, diziam.
- Fofura, esse buldogue!

E então eu me empertigava e discorria um ou dois comentários amáveis a cerca do meu amigo marrento, mas era apenas isso, sem acréscimos.

Como disse a coisa não funcionou... e como ele não é meu, já viu né... por aqui não se cria. Afinal, apesar de ter compaixão por ele não há sinergia capaz de possibilitar uma convivência pacífica entre nós. S eu der bobeira, ele mija na minha cama.

Bem, o marrento está com o dead line estabelecido para ficar por aqui. Vez em quando, dou umas bananas para ele, pois sei que é a alimentação que ele curte. É o que posso fazer no instante. Em junho nos despediremos...  sem culpas e sem remorsos, como sempre soube... era temporário. Tudo é temporário. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

MARÇO E O MAÇARICO

Hoje, caminhava pelas ruas do bairro de Botafogo. O sol de meio dia e meio realmente havia dito ao que viria. Aliás, assim tem sido nas últimas semanas. Mas hoje, diferente de sábado, por exemplo, dia em que eu marinava  minha testa debaixo de uma barraca na praia do Leme, hoje estava terrivelmente quente, calorento.

Na verdade, tanto os sapatos que eu calçava quanto as meias que eu vestia eram pouco apropriadas. E tinha a impressão que meus pés explodiriam em questão de minutos. A camisa grudenta, o jeans roçando as pernas e o sol ali me passando atestado de hipertenso, aquilo tudo era de morrer... não fosse aquele corpo que veio se ondeando em minha direção com o short jeans curtinho e os bolsos internos se prolongando em V nas coxas, repleto de pequenas pedrinhas brilhantes que faiscavam nos meus olhos o sol.

Ali, naquele instante, realizei mais uma elegia pecaminosa sobre a vida, vendo aqueles cabelos longos, negros, aquele top igualmente suarento, a pele luzindo sal. Tudo foi esquecido, tudo. Entendi tudo, entendi o mundo, entendi a beleza e o porquê do poetinha escrever letras para os jovens artistas dos anos 60 em vez de hermetizar em concretudes a ausência da musa, o vazio geométrico e cúbico. Ali fiz as pazes com o chão, chão, chão, com o simples erguer-se diariamente com o pão na manteiga, o café fresco e a leseira das seis horas da manhã. Realizei um poema, o melhor já sentido e vivido, mas não o escrevi. E não morrerei por isso. Na verdade, também vi algo mais profundo: vi o maçarico de março me atingindo em cheio com sua luz cegante no meio dia de uma rua de Botafogo. Era a menina com seus vinte anos de idade, era eu de peito aberto para a vida, era a cidade, o sol, o sol, o sol.
  

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Rubra Cartoneira Editorial

Acaba de nascer em Londrina (PR), um projeto editorial super bacana que vem para integrar o movimento de cartoneirismo da América Latina. Trata-se da Rubra Cartoneira, projeto idealizado pela Beatriz Bajo e por Marcelo Ariel. Desejo muita ventura, AXÉ e prosperidade para a Rubra Cartoneira, para que seus caminhos estejam sempre abertos e que possam publicar excelente literatura. Abaixo, algumas fotos que pincei no blog da Cartoneira.

"Editora artesanal, que produz livros por meio da intervenção no material que seria descartado para criar objetos artísticos, com isso, contribuir com a divulgação de escritores e tradutores de todos os gêneros, privilegiando os contemporâneos, bem como artistas plásticos e artesãos no sentido de descentralizar o mercado artístico e editorial, como o objetivo de promover alguma ou outra fonte de renda a esses personagens inéditos (ou não) no cenário literário e, sobretudo, disseminar a literatura, com enfoque plástico e ecológico com maior liberdade e democracia, culminando com um projeto que alia talento, preocupação social e, principalmente humanista."





segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Amanhã quando abrir os olhos eu saberei o dia de amanhã.

Não, não me chame hoje. 
Não diga meu nome, me esconda,
por favor, e jogue a chave fora, 
sim... puxe o sinal do ônibus,
me faça descer, por favor,
para única e exclusivamente me ver,
me ver, me saber o sal no céu da boca
me saber dizendo não e somente sim
e quem sabe talvez você e eu
sobrevivêssemos a nós.

Não foi dessa vez, não foi.
Por isso acenda esse cigarro longe,
por favor, agora chega,
desapareça, suma daqui.
A aspirina me cheira a náusea,
já viu esse cisto no crânio
na foto de iodo?
Pois não... muito prazer,
não lamento, só o hoje vou viver.

Amanhã, quem sabe, amanhã.
o azul reserve o céu de nuvens claras
ou a chuva escura lave o lodo,
o que for, chuva ou sol amanhã
quando abrir os olhos saberei.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Patológico

Todas as patologias. todas.
Hoje acordei e me iludi.
como todos os dias, como...
hoje acordei e era lama.

Nadei na lama
nadei sentado na minha cama
nadei na internet
nas horas mortas.

Hoje todas as patalogias,
todas as clínicas:
o exame do cérebro,
o iodo,
o sangue retirado.

Hoje é como ontem
como me faço mal
como me derroto
me curvo, me deito.

À noite de hoje olho
minha barriga de quase quarenta anos
e roubo mais um dia de felicidade
e narro assim aqui deitado
nesse esquálido ortopédico,
narro aqui o meu cínico mentir e manipular:
hoje não foi, hoje não será, hoje já me perdi
mas foi hoje, amanhã pode ser diferente, será?

E nesse exato momento que escrevo
e-x-a-t-o m-o-m-e-n-t-o
me digo a maravilha de que é me amar
e me prometo o que amanhã vai mudar e será?
e me olho no espelho
m-e o-l-h-o n-o e-s-p-e-l-h-o
e me vejo carne, osso, peito, pescoço
e só, muito pouco peço socorro.

Hoje fingi a chuva de domingo
e servi para lembrar em ti
que o seu choro carrega apenas o meu nome:
medo, ilusão, melancolia.