sábado, 16 de maio de 2009

Antônio Máximo & Baudelaire - pequenos poemas em prosa


O poeta e professor Antônio Máximo Ferraz estará dialogando com Baudelaire no Centro Cultural da Justiça Federal. Serão três encontros como o objetivo de ver como Baudelaire resgata a poeticidade do cotidiano, do trivial, do insólito, do maligno - em suma: de tudo aquilo que está à margem do sistema funcional que caracteriza a Modernidade.


para maiores informações, contate: maximoferraz@gmail.com ou o site do próprio CCJF




quarta-feira, 13 de maio de 2009

O lixo dos extremos.

Tenho pensado nos lixos extremos, nas vontades extremadas e naqueles estranhos que perderam os combates, as pequenas guerras diárias e que afinal, sucumbiram diante da vida, mesmo quando uma réstia de sangue corria em suas veias. Porque a vida é um fio tênue, uma luta de equilíbrio entre a insanidade e a boa vontade.

Olho em volta e em qualquer lugar dessa cidade sinto cheiro de refugo. Dejetos humanos andrajam e sobrevivem. Olhar para eles não me incomoda, não os sinto como lixo, não os temo, pelo contrário, muitas vezes me irmano na sensação de ser esquivo, tangente. Aliás, me pergunto: não seria um deles? Não estaria também na camada do refugo, do lixo, do descarte? E No final das contas, não seria o lixo o que realmente permanece?

Veja o carro zero quilometros passando na esquina e o último modelo da roupa bem cortada segundo os preceitos da última moda comentada pelo jornalista na televisão; os livros novíssimos que são publicados, nos ensinando um jeito de suportar viver... o que esses objetos se tornarão? lixo, apenas isso... que somam-se ao lixo anterior, um após outro, formando a montanha de objetos inúteis, de bactérias, de vermes, de gás metano, porque também há vida na sobrevida. Palestinos são o lixo dos israelenses e o Iraque é o lixo do petróleo. E de repente precisamos nos proteger das crianças que atiram em alguma escola estadunidense. Algum refugo que saiu do trilho. Precisamos nos proteger, precisamos... Será que realmente é disso que precisamos, proteção ou refreiar o desejo consumista?

Mas, de fato, o que permanece e aumenta é o lixo, o refugo, a sobra. E é ela que vai corroendo, atemorizando e fedendo. Durante anos o lixo e o degredo estanciavam no limítrofe da cidade. Agora, sentimos o cheiro na Linha Vermelha, vemos o urubu descansando na varanda de um apartamento de São Conrado e ouvimos algum lunático sugerindo tacar fogo nas favelas... Ainda assim vamos ao extremo e repetimos: Rio de Janeiro?! Rio de Janeiro é lindo... É show... Qual mesmo? Este que repetimos ou o que cresce diante de nós, o Rio lixo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O barro criativo de Brasil Barreto



Conheci Brasil Barreto no início dos anos 90. Na época, eu estava fissurado nos círculos de recitação do Rio. Do castelinho à Febarj, passando pelo Museu da República, assistia as performances dos poetas popularmente chamados de marginais. Para mim, eles eram os resquícios das gerações de 70, os que popularizaram os panfletos literários, as cópias mimeografadas. Lá, naqueles palcos improvisados, se apresentavam poetas da estirpe de Flávio Nascimento, Zeca Magalhães, Lúcia Nobre, Samaral (editor da revista Urbana), Brasil e outros.


Eles integravam um corpus de ativismo cultural maior ainda. Quase todos já eram quarentões e já tinham, como o próprio Brasil define, passado das nomenclaturas de Poetas do Mimeógrafo para Poetas Marginais e ultimamente recebiam a alcunha de Independentes - talvez por razão de o grupo acima citado não ter sido assimilado pela academia nem pelos corpos editoriais.


Desde meados dos anos 70 muitos desses poetas faziam um trabalho extremamente artesanal. Eles produziam com esmero suas publicações e as faziam circular nas ruas. Vendiam-as nos bares "in" da juventude, nas praias, nos cinemas, tal como fazem os poetas que estão na porta do CCBB. Brasil foi além, ele se especializou na produção de livros artesanais, seus livros sempre primam em cada tiragem por inovações no design estético e econômico. Já faz algum tempo que não nos cruzamos na cena carioca, justamente porque me afastei do circuito, parti para outras paragens. Ainda me lembro do Brasil em 2005, quando tomamos uma cervejinha no Lins Vasconcelos. Acho que ele deu uma acalmada no esporte boêmio, se ele não deu, não passa de tagalerice de minha parte, já que eu dei a parada, o stop.


Os poemas de Brasil remontam o ideário romântico com assertivas reflexivas existênciais. Pode-se combinar o Bandeira ao Varela num de seus campos de influência. Diferente de muitos poetas de sua geração, que ventilavam o lastro da oralidade como matriz criadora dos poemas, Brasil força uma viagem interior na qual o "onde" que o seu "eu" pode chegar não está muito longe do ponto de partida, visto que está tonto de poesia, embriagado de orgias e carrega muitas dores do mundo. Ainda assim o poeta não despreza a melodia, a linha ritmica do poema. Quando há quebras, elas são sutis, sob medida.


Um dos poemas que mais me encantam de Brasil é Poças d'água. Nele há uma condensação do sentido. O elemento água está presente desde o início até fim.


Poças d´água


Pasmo nessa tarde de um sábado invernal

sob uma chuva, molhando o chão de pura

nostalgia, sigo em frente nessa trilha

salto poças d'águas, numa sequência

mágica do jogo de amarelinhas, num

pérpétuo céu e inferno, droga de azar.


Meus rompantes febris se alternam com o frio

trago comigo uma pessoa frienta e incandescida,

insistente na difícil arte de enganar destinos.


Sigo avante, mapeando novas rotas estrelares.

Retorno para casa, após passar pelos imbecis,

que buscam sentidos em minhas aliterações...

Lembro a imagem de suas máscaras cínicas.


Peço aos céus, uma manhã, vestido de sol

dando conta de todas as minhas cismas vis e vãs

só para ver a vida fluir nos saltos de uma rã.



A percepção andarilha do Brasil o sitia no Rio. No Rio o que ele vê é modernismo, é o açoite de quem precisa embriagar-se, como no poema veloz-cidade:


Veloz-cidade


Quem sabe existe

um poema parodiando

o nosso cotidiano.

A cidade apressada

entardece as horas,

logo a boca da noite

a engolirá em velozes

amargos goles...

Sabemos dos perigos

que nela rondam,

a leptospirose

tem seu lugar comum.

O amor é vendido

a cada esquina,

fragmentos esquecidos.

Aos meus olhos cenas sutis

a vida nua e crua,

anseia no meio da praça

de mãos dadas com suas gurias

ofertando sexos mirins,

a vida é essa camarada

que passa nua nos becos

dos seus santos dias.


No poema anônimo, publicado originalmente na revista Urbana 15, o poeta continua suas aventuras pelas ruas do Rio. A temática é similar ao exposto acima. A cidade envolta pelo olhar flaneur do poeta é dolorosa. Também há no fim do poema a mesma reflexão que finaliza a outra obra, a religiosidade que habita a cidade e que coexiste penosamente no poema.


Anônimo


Dorme esquecida a cidade

um sono cinzento,

de domingo chuvoso.

Como anônimo, círculo

procurando o cintilar do verso.


O medo me acena

a cada esquina;

contorno a vida:


-Via estúpida -


Plugada na marginal

do meu pobre peito,

onde se aninha uma dor

que ora ainda desconheço.


Doce é o amor que se basta,

fruto que devoro estremecido,

persiguindo pegadas

num labirinto de véus.

Então direi: duro é o chão

sem a leveza dos céus.


Estes são alguns dos vários poema de Brasil. Sua obra é extensa, porém difícil de encontrar. Ele não anda muito na rede, salvo aqui e acolá. Sinto saudades do camarada!


A foto que ilustra o post foi gentilmente copiada do blog ser poeta ao nada, do Edu Planches.


domingo, 10 de maio de 2009

ROSANA QUEIROZ - NO VALE DO EXÍLIO DE SOMBRAS

Há alguns anos, mas especificamente em 1995, adquiri em um sebo o livro No vale do exílio de sombras, de Rosana Queiroz. Sempre vou e volto relendo os poemas da autora. Fiz uma pesquisa na internet e apesar de encontrar alguns links que direcionam na área de literatura para o nome Rosana Queiroz, não identifiquei nenhuma referência de estilo e estética que condiz com o traço poético da autora do livro que possuo.

São interessantes esses livros que nos deparam em estantes de sebos. Autores de apenas um único título. Quantos escritores bons, como que não registram suas obras em livros?

No entanto, o mercado continua nos injetando muitas porcarias...
Mas deixo aqui dois poemas de Rosana para apreciação.


Chuvarada

A voracidade do verão sobre a laje
é zinir renitente de um bicho cascudo
ou piada de filhote de galinha, inexoravelmente só.
Meu pai xinga trovões que não entendo
(tem uma orquestra debaixo da garganta):
como pode existir alguém tão vesicular
amiudando a vida.
No porto a atracação do navio
é como parto com dor, alexandrino.
O cheiro do mar oleoso só quando vai chover
é que passeia na vila.
Sobre minha cabeça esta dúvida: resistirão os tetos,
a lona está bem jungida sobre os livros?

Depois, o cheiro pacífico do musgo vivo, hostial.


Visagem

Existe uma hora
das mais medianas do dia
que sugere um lago à beira de uma estrada de atalho
onde o cascalho
do poema repousa no fundo, inabalado, enjoado

lá onde algas respiram/repousam límpidas, amorosas criaturas

em que as coisas parecem sóis presos em luz de frialdades
vacilam entre tudo e nada
sob a luz nostálgica de um útero

que nos abrigue do caos
uma hora em que o futuro se projeta
de uma memória ebúlica.

sábado, 9 de maio de 2009

contato

Para mim parece que o ano acabou de começar. Explico: só agora estou devidamente conectado à internet. De novembro a maio sem conexão. Aproveitei para por a escrita manuscrita devidamente em dia. Eu fiz um diário, li bastante, explorei meus poemas inacabados do Rio Movediço.

É estranho ficar sem visitar os blogs favoritos, ficar adormecido das leituras diárias. Neste intervalo percebi uma queda vertiginosa de visitas. Se o blog andava com bom índice no fim do ano passado, agora vou ter que cativar novamente o pessoal. Mas isso não me preocupa muito não. Aos poucos vou retomando o ritmo, desenferrujando a mão. A idéia continua a mesma: fazer do Rio Movediço um espaço dinâmico e crítico. Discutir literatura, política e futebol, artes plásticas. Fazer entrevistas, resenhas, publicar outros autores e expor minhas opiniões.

Bom mesmo foi ver que a rapaziada continua com o faro fino. Meus ex-colegas de bagatelas, Tatiana Carlotti e Miguel do Rosário estão mandando bala nos respectivos blogs.
***
A Flip já está com data marcada para começar mais uma edição. O homenageado do ano é o nosso peneumotorax Bandeira, o Manuelzinho. É sem dúvidas, a festa literária de maior repercussão no Brasil, embora receba diversas críticas, entre elas, cita-se a relação ao capital investido e retorno social que a festa proporciona, mesmo com toda a cobertura midiática que ela obtém durante sua execução, pondendo inclusive, compará-la ao Carnaval, ou a uma final de campeonato no Maracanã. Na mídia, a Flip suplantou a histórica Bienal e tornou-se o momento do livro no Brasil, a Meca.

Há dois anos o escritor paulista Marcelo Mirisola publicou um texto sentando o pau no evento. Diga-se que o artigo foi escrito originalmente para o Zero Hora. O jornal, sem muitas delongas, o ceifou de seu papel, censurando-o. O inquieto escritor, não satisfeito o publicou na rede e no livro de sua autoria “o proibidão” que reúne, além deste texto, outros de semelhantes ímpetos. De fato, algumas de suas críticas foram extremamente contundentes, basta você, caro leitor, dar um pequena procurada pela internet que certamente encontrará a reprodução na íntegra do dito cujo.

No ano passado foi a vez da Carta Capital publicar um artigo expondo as mazelas da Flip. Vamos ver, neste ano, quem atirará a primeira pedra.