segunda-feira, 11 de maio de 2009

O barro criativo de Brasil Barreto



Conheci Brasil Barreto no início dos anos 90. Na época, eu estava fissurado nos círculos de recitação do Rio. Do castelinho à Febarj, passando pelo Museu da República, assistia as performances dos poetas popularmente chamados de marginais. Para mim, eles eram os resquícios das gerações de 70, os que popularizaram os panfletos literários, as cópias mimeografadas. Lá, naqueles palcos improvisados, se apresentavam poetas da estirpe de Flávio Nascimento, Zeca Magalhães, Lúcia Nobre, Samaral (editor da revista Urbana), Brasil e outros.


Eles integravam um corpus de ativismo cultural maior ainda. Quase todos já eram quarentões e já tinham, como o próprio Brasil define, passado das nomenclaturas de Poetas do Mimeógrafo para Poetas Marginais e ultimamente recebiam a alcunha de Independentes - talvez por razão de o grupo acima citado não ter sido assimilado pela academia nem pelos corpos editoriais.


Desde meados dos anos 70 muitos desses poetas faziam um trabalho extremamente artesanal. Eles produziam com esmero suas publicações e as faziam circular nas ruas. Vendiam-as nos bares "in" da juventude, nas praias, nos cinemas, tal como fazem os poetas que estão na porta do CCBB. Brasil foi além, ele se especializou na produção de livros artesanais, seus livros sempre primam em cada tiragem por inovações no design estético e econômico. Já faz algum tempo que não nos cruzamos na cena carioca, justamente porque me afastei do circuito, parti para outras paragens. Ainda me lembro do Brasil em 2005, quando tomamos uma cervejinha no Lins Vasconcelos. Acho que ele deu uma acalmada no esporte boêmio, se ele não deu, não passa de tagalerice de minha parte, já que eu dei a parada, o stop.


Os poemas de Brasil remontam o ideário romântico com assertivas reflexivas existênciais. Pode-se combinar o Bandeira ao Varela num de seus campos de influência. Diferente de muitos poetas de sua geração, que ventilavam o lastro da oralidade como matriz criadora dos poemas, Brasil força uma viagem interior na qual o "onde" que o seu "eu" pode chegar não está muito longe do ponto de partida, visto que está tonto de poesia, embriagado de orgias e carrega muitas dores do mundo. Ainda assim o poeta não despreza a melodia, a linha ritmica do poema. Quando há quebras, elas são sutis, sob medida.


Um dos poemas que mais me encantam de Brasil é Poças d'água. Nele há uma condensação do sentido. O elemento água está presente desde o início até fim.


Poças d´água


Pasmo nessa tarde de um sábado invernal

sob uma chuva, molhando o chão de pura

nostalgia, sigo em frente nessa trilha

salto poças d'águas, numa sequência

mágica do jogo de amarelinhas, num

pérpétuo céu e inferno, droga de azar.


Meus rompantes febris se alternam com o frio

trago comigo uma pessoa frienta e incandescida,

insistente na difícil arte de enganar destinos.


Sigo avante, mapeando novas rotas estrelares.

Retorno para casa, após passar pelos imbecis,

que buscam sentidos em minhas aliterações...

Lembro a imagem de suas máscaras cínicas.


Peço aos céus, uma manhã, vestido de sol

dando conta de todas as minhas cismas vis e vãs

só para ver a vida fluir nos saltos de uma rã.



A percepção andarilha do Brasil o sitia no Rio. No Rio o que ele vê é modernismo, é o açoite de quem precisa embriagar-se, como no poema veloz-cidade:


Veloz-cidade


Quem sabe existe

um poema parodiando

o nosso cotidiano.

A cidade apressada

entardece as horas,

logo a boca da noite

a engolirá em velozes

amargos goles...

Sabemos dos perigos

que nela rondam,

a leptospirose

tem seu lugar comum.

O amor é vendido

a cada esquina,

fragmentos esquecidos.

Aos meus olhos cenas sutis

a vida nua e crua,

anseia no meio da praça

de mãos dadas com suas gurias

ofertando sexos mirins,

a vida é essa camarada

que passa nua nos becos

dos seus santos dias.


No poema anônimo, publicado originalmente na revista Urbana 15, o poeta continua suas aventuras pelas ruas do Rio. A temática é similar ao exposto acima. A cidade envolta pelo olhar flaneur do poeta é dolorosa. Também há no fim do poema a mesma reflexão que finaliza a outra obra, a religiosidade que habita a cidade e que coexiste penosamente no poema.


Anônimo


Dorme esquecida a cidade

um sono cinzento,

de domingo chuvoso.

Como anônimo, círculo

procurando o cintilar do verso.


O medo me acena

a cada esquina;

contorno a vida:


-Via estúpida -


Plugada na marginal

do meu pobre peito,

onde se aninha uma dor

que ora ainda desconheço.


Doce é o amor que se basta,

fruto que devoro estremecido,

persiguindo pegadas

num labirinto de véus.

Então direi: duro é o chão

sem a leveza dos céus.


Estes são alguns dos vários poema de Brasil. Sua obra é extensa, porém difícil de encontrar. Ele não anda muito na rede, salvo aqui e acolá. Sinto saudades do camarada!


A foto que ilustra o post foi gentilmente copiada do blog ser poeta ao nada, do Edu Planches.


domingo, 10 de maio de 2009

ROSANA QUEIROZ - NO VALE DO EXÍLIO DE SOMBRAS

Há alguns anos, mas especificamente em 1995, adquiri em um sebo o livro No vale do exílio de sombras, de Rosana Queiroz. Sempre vou e volto relendo os poemas da autora. Fiz uma pesquisa na internet e apesar de encontrar alguns links que direcionam na área de literatura para o nome Rosana Queiroz, não identifiquei nenhuma referência de estilo e estética que condiz com o traço poético da autora do livro que possuo.

São interessantes esses livros que nos deparam em estantes de sebos. Autores de apenas um único título. Quantos escritores bons, como que não registram suas obras em livros?

No entanto, o mercado continua nos injetando muitas porcarias...
Mas deixo aqui dois poemas de Rosana para apreciação.


Chuvarada

A voracidade do verão sobre a laje
é zinir renitente de um bicho cascudo
ou piada de filhote de galinha, inexoravelmente só.
Meu pai xinga trovões que não entendo
(tem uma orquestra debaixo da garganta):
como pode existir alguém tão vesicular
amiudando a vida.
No porto a atracação do navio
é como parto com dor, alexandrino.
O cheiro do mar oleoso só quando vai chover
é que passeia na vila.
Sobre minha cabeça esta dúvida: resistirão os tetos,
a lona está bem jungida sobre os livros?

Depois, o cheiro pacífico do musgo vivo, hostial.


Visagem

Existe uma hora
das mais medianas do dia
que sugere um lago à beira de uma estrada de atalho
onde o cascalho
do poema repousa no fundo, inabalado, enjoado

lá onde algas respiram/repousam límpidas, amorosas criaturas

em que as coisas parecem sóis presos em luz de frialdades
vacilam entre tudo e nada
sob a luz nostálgica de um útero

que nos abrigue do caos
uma hora em que o futuro se projeta
de uma memória ebúlica.

sábado, 9 de maio de 2009

contato

Para mim parece que o ano acabou de começar. Explico: só agora estou devidamente conectado à internet. De novembro a maio sem conexão. Aproveitei para por a escrita manuscrita devidamente em dia. Eu fiz um diário, li bastante, explorei meus poemas inacabados do Rio Movediço.

É estranho ficar sem visitar os blogs favoritos, ficar adormecido das leituras diárias. Neste intervalo percebi uma queda vertiginosa de visitas. Se o blog andava com bom índice no fim do ano passado, agora vou ter que cativar novamente o pessoal. Mas isso não me preocupa muito não. Aos poucos vou retomando o ritmo, desenferrujando a mão. A idéia continua a mesma: fazer do Rio Movediço um espaço dinâmico e crítico. Discutir literatura, política e futebol, artes plásticas. Fazer entrevistas, resenhas, publicar outros autores e expor minhas opiniões.

Bom mesmo foi ver que a rapaziada continua com o faro fino. Meus ex-colegas de bagatelas, Tatiana Carlotti e Miguel do Rosário estão mandando bala nos respectivos blogs.
***
A Flip já está com data marcada para começar mais uma edição. O homenageado do ano é o nosso peneumotorax Bandeira, o Manuelzinho. É sem dúvidas, a festa literária de maior repercussão no Brasil, embora receba diversas críticas, entre elas, cita-se a relação ao capital investido e retorno social que a festa proporciona, mesmo com toda a cobertura midiática que ela obtém durante sua execução, pondendo inclusive, compará-la ao Carnaval, ou a uma final de campeonato no Maracanã. Na mídia, a Flip suplantou a histórica Bienal e tornou-se o momento do livro no Brasil, a Meca.

Há dois anos o escritor paulista Marcelo Mirisola publicou um texto sentando o pau no evento. Diga-se que o artigo foi escrito originalmente para o Zero Hora. O jornal, sem muitas delongas, o ceifou de seu papel, censurando-o. O inquieto escritor, não satisfeito o publicou na rede e no livro de sua autoria “o proibidão” que reúne, além deste texto, outros de semelhantes ímpetos. De fato, algumas de suas críticas foram extremamente contundentes, basta você, caro leitor, dar um pequena procurada pela internet que certamente encontrará a reprodução na íntegra do dito cujo.

No ano passado foi a vez da Carta Capital publicar um artigo expondo as mazelas da Flip. Vamos ver, neste ano, quem atirará a primeira pedra.


domingo, 19 de abril de 2009

Jesus, Buda e ainda acendo um charuto para os homens de Marte e o escambau!

Alguém tem dúvidas sobre qual é o segmento literário que mais vende?
O ser humano sofre, sofre muito.
Se você entrar numa livraria de ponta, tipo mega store, e por curiosidade avaliar qual é um dos sustentáculos das vendas, saiba, caro leitor, que é o segmento de auto-ajuda. É ele o responsável pelo capital de giro de muitas livrarias e por proporcionar, inclusive, a manutenção de outros títulos que estão nas estantes de filosofia, de literatura e de outros mais cabeças ainda. Por isso muitos livreiros alegam a necessidade da auto-ajuda, como se isto fosse uma desculpa, uma válvula de escape para tamanho desperdício de papel, visto que este gênero realmente pode ser sintetizado em uma única expressão: "Você pode salvar sua vida".
O público de auto-ajuda também se distingue dos demais públicos, digamos, dos que tem a mente mais aberta. São clientes urgentes que não possuem o hábito de buquinar, geralmente vão no balcão de atendimento, demandam por um título (e acreditem, muitas vezes nem sabem direito o nome do livro que procuram), saem satisfeitos com sua aquisição e nem se dão ao trabalho de girar os olhos no ambiente que os cerca. É assim o comportamento de boa parte de leitores. A busca da salvação cega-os literariamente.
Hoje, li no Globo uma pérola cheirando a jabá descarado. Um médiun de sucesso internacional, intergalático, recentemente traduzido aqui no nosso brazillis espiritus, deu palestra em Curitiba e anunciou aos montes palavras salvadoras de espíritos para pessoas que estão sofrendo perdas de familiares.
Se na perda de um familiar uma palavra de carinho ajuda muito, também na labuta diária, na busca de um emprego, na promessa de uma dádiva muitas palavrinhas de estímulo e consolo podem ajudar, entoces, vamos aos lencinhos de papel que são distribuídos em formato de livros que auxiliam muitíssimo o editor em ganhar a lot of money e à gastação inútil de papel para suprir nossos leitores que sofrem com títulos novos. A cada dia tem uns quinze livros novíssimos que ensinam de um tudo com a seguinte mensagem: "Você pode salvar sua vida".
E salva mesmo, é garantia de felicidade para o senhor, para a senhora, para minha mãe e para minha sogra também. Só não é para mim, pelo menos por enquanto. A minha salvação é o dorflex, já que amanhã vou ter de carregar pilhas e mais pilhas do livro do famoso médiun que o Globo fez o desfavor de jabatizar. Poderiam ter escrito sobre meu livro que, se não salva, pelo menos tem um repertório vocabular maior, e por conseqüência, não se reduz a "Você pode salvar sua vida", é um pouquinho mais, é mais humano.

domingo, 12 de abril de 2009

Carta a Moacy

Caro Moacy,

Você me pergunta por onde ando... Estou bem, muito bem, aliás, começando uma fase nova na vida. Realmente não tenho atualizado o Rio Movediço, pode-se ver... Se eu dissesse que foi perda de interesse, você não acreditaria, nem mesmo eu. Embora este seja meu segundo blog e no anterior houve uma perda de interesse em continuar com minhas atividades internéticas, mas agora a questão de ausência de “posts” se deve a outros assuntos, visto que não parei de escrever, pelo contrário, minha produção poética e ensaística continuam em pleno vapor. Somente não estou vinculando na rede. Mas, de todo modo, teu pequeno comentário já me serve para dignificar-me em te dar minhas saudações e retornar ao blog.

Bom, fatores do cotidiano, tais como: excesso de trabalho (trabalho nove horas por dia em contato direto com pessoas e em pé), mudança de apartamento, casamento e lua de mel, obras de reparo no apartamento novo e uma nova dinâmica de vida com um curso que também ocupa meu tempo e cujo conteúdo poderei te contar mais para frente, além de ter que fechar o cinto durante os meses de janeiro, fevereiro, março e lá vai fumaça pela vida a fora fez que eu me abstivesse de atuar diretamente no Rio Movediço. Aproveitei, então, essa conjunção astral de fatores para aprofundar a leitura de poetas que acho importantes para minha evolução na poeisis e me debrucei também na escrita dos poemas do meu livro, que por sinal é o título deste blog. Mas, a partir da semana que vem, já estarei novamente conectado ao mundo internético e espero continuar militando nas artes assiduamente.
Me despeço, agora, caro Moacy, esperando sinceramente que possamos retomar nossas visitas mútuas e, dessa forma, continuarmos a contaminar e sermos contaminados pelo vírus do savoir vivre avec la culture et l’art